Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O blogue melhora a vida das pessoas?*

por Carla Hilário Quevedo, em 29.07.11

Ao contrário do que muitos juram a pés juntos, acredito – tenho muita, mesmo muita fé nisso – que a leitura melhora a vida de algumas pessoas. A chave desta crença (que é como quem diz «tese»), e a maneira de encontrei de me proteger das críticas ferozes que não deixo nunca de merecer, é aquele «algumas». Não, nem todas as pessoas que lêem. Só aquelas que têm bom carácter. Talvez esteja a brincar. Eu própria ainda não sei se chegou a hora de admitir que não estou nada. Ora, o que fazemos nós na blogosfera? Lemos precisamente, muitíssimo mais do que escrevemos. Assim sendo, proponho a seguinte reflexão: o blogue melhora a vida das pessoas?

 

Não hesito em responder que sim. Mesmo desconhecendo completamente a vida anterior dos autores da quase totalidade dos blogues portugueses, estou absolutamente certa de que houve uma melhoria substancial nas suas vidas na sequência da criação dos seus blogues. Em vez de andarem por aí na malandragem, por exemplo, andam na malandragem na blogosfera, o que apesar de tudo poupa bastantes maçadas. Há casos em que a melhoria de vida dos blogueadores é notória. Casos de mulheres que não tinham o que fazer, agora têm blogues; casos de homens que não tinham quem insultar que passaram a poder fazê-lo por causa dos blogues; casos de pessoas que não tinham vida própria e que passaram a tê-la na blogosfera. Ao contrário do que possa parecer, todas estas situações são exemplos de melhoria de vida. Uma melhoria no sentido em que o blogue ocupou um espaço vazio e de sofrimento em muitas pessoas. O meu total desconhecimento do que eram antes de chegarem aos blogues é um pormenor irrelevante. Não interessa tanto saber como eram, importa saber como se comportam porque isso nos diz o suficiente a respeito do que nunca deixaram de ser.

 

Imaginemos por instantes um alcoólico com mau álcool, chato, repetitivo, exaltado ou mesmo violento. Não é o álcool que transforma um homem doce num criminoso que bate em mulheres, por exemplo. É o próprio criminoso que se torna o que sempre foi no momento em que bebe uns copos e, por assim dizer, descontrai e – obrigada, Big Brother! – é «ele próprio». O mesmo se passa com as mulheres que sempre que estão na presença de outras mulheres não conseguem deixar de sentir uma inveja galopante. As responsáveis pela mudança de cor das invejosas – para um verde esquisito – não são as outras mulheres, mas as falhas irreparáveis de carácter nas primeiras.


O blogueador não é excepção a esta regra. O blogue só potencia o melhor ou o pior que existe em nós, tal como o álcool ou a presença de outras mulheres. Talvez por essa razão, os blogues amargos ou ressentidos sejam tão extraordinários. É preciso perceber que se não fosse o blogue, aquelas pessoas estariam a fazer a vida negra a alguém da sua própria família. Assim, não. Estão simplesmente a achar que existe uma comunidade inteira interessada na vida negra que gostariam de fazer a completos estranhos. Ora, isso, para mim, representa uma melhoria inquestionável na vida dessas pessoas, quanto mais não seja pela pergunta óbvia: se não fosse o blogue como poderiam ser «eles próprios»?


Mas deixemos os casos mais difíceis de defender de melhoria de vida para descansarmos nos mais evidentes. Porque é que há na blogosfera quem mantenha os seus blogues há mais de quatro anos? Ou há três? Ou mesmo há dois? O que faz com que pessoas adultas se dediquem diariamente a algo que não lhes traz dinheiro (na maior parte dos casos) e que tantas vezes lhes traz anónimos mal-educados às caixas de correio ou de comentários? Nem todos serão masoquistas, apreciadores de uma bela actividade que implica gasto de tempo e que pode ser muito insatisfatória. Sendo assim, porquê? Apresento três razões para a permanência: 1) encontrámos uma maneira de «sermos nós próprios» nesta espécie de «reality-show» artificial e no computador; 2) apesar de tudo, continuamos a ter tempo; e 3) há pessoas que gostam da partilha pelo puro prazer da partilha e não por um interesse rebuscado, uma intenção obscura ou uma vontade inconfessável. Essa necessidade de partilha – comum a muitos blogues, felizmente; aos melhores, acrescentaria mesmo –pode tornar-se um vício. Julgo que no caso dos melhores blogues é isso que se passa. Porque os melhores blogues são generosos, dedicados, alegres ou tristes mas nunca controladores, sacanas, nem impositivos de nada. Como as melhores pessoas.

 

O blogue melhora a vida das melhores e das piores pessoas porque lhes possibilita ser todos os dias aquilo que realmente são.

 

* Crónica publicada na saudosa Atlântico, em Novembro de 2007. Volto a publicá-la porque ontem apareceu a sombra do tema.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:56

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 29.07.11

Marilyn Monroe

 

... o Verão está a querer colaborar com incansáveis almas trabalhadoras. Pela minha parte, agradeço o apoio e a neblina. E correu muito bem. Foi um prazer, estimado Jansenista. Em Setembro, dou notícias das próximas sessões do Café dos Blogues. Todas prometem. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 08:33