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Dor de Cabeça: O demónio financeiro

por Carla Hilário Quevedo, em 30.09.11

O mundo não sabia da existência de Alessio Rastani, mas tinha a ideia de que o que disse numa entrevista à BBC News era uma realidade: o pesadelo de uns é o sonho de outros. Há quem ganhe muito dinheiro à custa da desgraça alheia, mas poucos falam do tema. A crise interessar a uma minoria é uma suspeita comum, baseada em acontecimentos do quotidiano. Não é preciso ser corretor na bolsa para saber que comprar hoje acções, propriedades, empresas, etc. é um negócio lucrativo, porque não há descida que não seja seguida de uma subida, e assim sucessivamente. Assim, ‘ter dinheiro’ é sinónimo de ‘poder esperar’ até vender por um preço razoável o que se adquiriu por muito pouco. Isto para dizer que Alessio Rastani não deu uma grande novidade ao mundo. Só pôs lenha numa fogueira tímida, fazendo com que ardesse com exuberância pela imprensa e pelas redes sociais. Mas o corrector acrescentou o seguinte: «os governos não mandam no mundo, a Goldman Sachs é que manda». Poucas horas depois, Lloyd Blankfein, director executivo da financeira, era alvo de um ataque de hackers. Houve quem desse ouvidos a Rastani e quisesse mostrar que era «um mandar» relativo. A revelação estapafúrdia aparecia como uma probabilidade razoável. É fácil acreditar numa informação dada na BBC News, por alguém que vive naquele mundo. Ainda por cima, parece mesmo que Alessio Rastani está a dizer a verdade. Ou a ser sincero, como dizem. Até disse o que todos sabíamos e ninguém dizia. Pouco depois dos seus três minutos de fama, viu a sua credibilidade a ser posta em causa e dados privados seus – conta bancária, estado civil, etc. – foram divulgados. Chegou a ser dito que pertenceria a um grupo de comediantes que ridiculariza as grandes empresas. A BBC defendeu a idoneidade do demónio financeiro que contactara. Ainda tínhamos a notícia embaraçosa de que a estação fora enganada. Quanto a Alessio Rastani, veio dizer que «adora falar» e «queria atenção». Continuou a ser sincero. Basta saber de quem queria a atenção e assim teremos a resposta aos banzados porquês.

 

Publicado hoje no Metro.

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publicado às 17:46