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por Carla Hilário Quevedo, em 11.10.11

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publicado às 17:27

Era ruiva

por Carla Hilário Quevedo, em 11.10.11

Gustave Courbet, Jo, La Belle Irlandaise, 1865–66

 

Li um artigo magnífico do escritor argentino Mário Goloboff, publicado no jornal Página 12, sobre Gustave Courbet e o célebre A Origem do Mundo. Passei a saber que a modelo do quadro escandaloso, Joana Hifferman, já posara para o não menos maravilhoso Jo, La Belle Irlandaise. Joana era ruiva. Courbet, para proteger o bom nome da modelo ou para não dar pistas confusas – as ruivas foram acusadas de bruxaria pela Inquisição – pintou, sem dúvida, uma morena. Goloboff também conta que A Origem do Mundo foi pintado em 1866 e que, a partir de 1868, ninguém mais soube do seu paradeiro até à segunda década do século passado. Comprado por um barão húngaro, estava em sua casa em Budapeste. Os nazis confiscaram-no, mas não o destruíram. Recuperado depois da guerra, foi vendido em 1955 a um coleccionador francês, que o guardou em sua casa. Tinha um quadro por cima, a ocultar o de Gustave Courbet. Só ele o podia ver. Ninguém sabe se por censura ou pudor. Ou egoísmo. Gosto de pensar que era por amor. O feliz proprietário do quadro era Jacques Lacan. Depois da sua morte, os familiares deram-no ao estado francês para saldar a conta dos direitos sucessórios.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 7-10-11

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publicado às 17:21

Não chega

por Carla Hilário Quevedo, em 11.10.11

David Brooks escreveu um artigo no New York Times sobre os limites da empatia. Os limites estão precisamente na pouca relação que existe entre ser uma pessoa capaz de se pôr na situação do outro e ser alguém que actua no sentido de mudar algo na sua vida. Apoiado nos mais recentes estudos sobre o tema, Brooks afirma que alguém sensível à dor alheia não é mais capaz de ajudar o próximo do que aquele que acredita ter um dever de solidariedade mas que não tem qualquer afinidade com quem sofre. Parte do que Brooks nos diz é trivial: é preferível agir a ter pena. A outra parte é estimulante: a empatia não salva vidas. Segundo Brooks, as boas acções são praticadas por quem se rege por um código orientado pelo dever de solidariedade com o próximo. Por isso, em vez de as escolas ensinarem a empatia, elas devem, na sua opinião, ensinar um código a seguir. O problema é não explicar como se ensina o código. Talvez porque os códigos que o deslumbram funcionam para santos. Os restantes seres humanos (também me incluo, apesar da gramática) tentam fazer o melhor que sabem e podem. Só não sei o que faz alguém indiferente ao sofrimento alheio. Provavelmente nada de jeito.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 7-10-11

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publicado às 17:15

Mamãe!

por Carla Hilário Quevedo, em 11.10.11
 

A nova campanha da marca de lingerie brasileira Hope não agradou à Secretaria de Políticas para as Mulheres que reclamou ao Conselho Nacional de Auto-regulamentação Publicitária. A campanha que considerou sexista e que quer ver fora do ar chama-se «Hope ensina» e é protagonizada por Gisele Bündchen. Num primeiro momento, a modelo aparece vestida a dar uma má notícia. O exemplo é assinalado com um «errado». No segundo, aparece em lingerie a dar a mesma notícia. Desta vez, aparece um «certo». Nos três anúncios, as más notícias são clássicos do feminino de todos os tempos: a mãe dela vai morar com eles, ela ultrapassou o limite do cartão de crédito e bateu com o carro. Todos têm graça e o primeiro é o mais divertido. Nenhum me pareceu ofensivo para as mulheres. São piadas bem conseguidas a partir de preconceitos relativamente a uma ideia de comportamento feminino para amenizar situações incómodas. A suspeita de que a campanha pode ter efeitos nocivos para as mulheres não tem nenhum sentido. Nenhum machista ficará mais ou menos machista com ou sem anúncios. A publicidade não tem assim tanto poder. E o moralismo feminista não tem muito sentido de humor.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 7-10-11

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publicado às 17:08