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Dor de Cabeça: Arrogância pimba

por Carla Hilário Quevedo, em 14.10.11

A coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker acusou Beyoncé de plagiar duas coreografias suas, Rosas Danst Rosas, de 1983, e Achterland, de 1990, no mais recente vídeo do tema Countdown. A cantora admitiu o uso das ideias alheias, explicando que se tinha baseado em várias referências dos anos 60, como Andy Warhol, Twiggy ou Audrey Hepburn, em Funny Face, para compor o vídeo. Ficou por explicar a utilização de coreografias, cenários e figurinos da década de 80. À acusação de «roubo» de Anne Teresa de Keersmaeker, Beyoncé respondeu que o vídeo atingiu cerca de dois milhões de visualizações no YouTube, o que também representa uma boa publicidade para o trabalho da coreógrafa belga. Não é a primeira vez que Beyoncé «celebra» o trabalho de outras pessoas de uma forma que classificaria de pura pilhagem. Aconteceu primeiro com a coreografia do vídeo Single Ladies, do coreógrafo Bob Fosse, para Sweet Charity. Depois Beyoncé viu Betty Page no YouTube e fez o vídeo do tema Why Don’t You Love Me?. À excepção de Single Ladies, que é um pouco mais respeitoso na cópia, em nenhum dos restantes casos houve ambientes recriados nem tributos prestados. Os passos de dança eram iguais e as cenas foram repetidas sem haver o mínimo pudor na citação sem aspas. Há uma diferença clara entre um gesto de Britney Spears no vídeo de Toxic a homenagear Madonna numa apresentação histórica de Like a Virgin, na Blond Ambition Tour, e a apropriação de Beyoncé de uma cena de Rosas danst Rosas encaixada à força numa salada de referências coloridas, cujo propósito é apenas, como referiu Anne Teresa de Keersmaeker, entreter e seduzir as massas. Mas ainda pior é a resposta de Beyoncé. Apesar de juridicamente cautelosa, a insistência de o tributo beneficiar o desgraçado do tributado é de uma arrogância detestável. Como se a criatividade dos que não criam para as massas e têm necessariamente menos projecção estivesse à mercê das boleias chantagistas das Beyoncés da vida. O descaramento pimba não tem limites.

 

Publicado hoje no Metro.

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publicado às 18:49