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Alegria e pequena desilusão

por Carla Hilário Quevedo, em 06.12.11

Recebi uma prenda de Natal e não resisti a abri-la logo. Era a versão portuguesa de Vida e Destino, de Vassili Grossman, publicada pela D. Quixote, e traduzida pela excelente dupla Nina Guerra e Filipe Guerra. Há muito tempo que esperava por este livro. Grossman é um autor russo e judeu, comunista desde o primeiro instante. Ter sido testemunha do estalinismo contribuiu para ser muito crítico do regime, acabando por ser banido depois da guerra. Vida e Destino, a sua obra maior, de 1961, foi proibida e destruída. Só em 1980 começou a ser lida e conhecida na Suíça. Trata-se de uma obra monumental, comparada à Guerra e Paz de Lev Tolstói e com um estilo que Zvetan Todorov equiparou ao de Tchékhov. As vidas entrelaçadas das mais de 150 personagens requerem um exercício mnemónico considerável. É por isso que as traduções em castelhano e inglês, que são as que conheço, têm no final pequenas biografias de cada uma das personagens. É uma tarefa árdua para os editores e uma cábula generosa para os leitores. Mas este mitzvah literário não nos foi concedido na versão portuguesa. Seja qual for a sua justificação, austeridade ou preguiça, é uma pena que seja assim.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 2-12-11

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publicado às 18:55

É a língua, senhores

por Carla Hilário Quevedo, em 06.12.11

Um estudo realizado no Reino Unido por um canal de televisão concluiu que uma em três pessoas não diz «thank you». São usadas outras palavras, que vão do monossílabo «ta», ao célebre «cool», e até ao francês «merci». Não percebi qual seria o objectivo deste estudo que nos pudesse levar além da verificação simples de que as línguas faladas são vivas, mudam e encontram outras palavras para expressar os mesmos sentimentos ou estados de espírito. Ainda há pouco, uma gentileza rodoviária era expressa com um movimento de cabeça ou com uma afável mão aberta. Agora só vejo polegares a imitar os Like! do Facebook. Imagino que sirvam para expressar apreço pela amabilidade na estrada. Já me aconteceu ser agraciada com uma espécie de punho rapeiro, com o polegar e o dedo mindinho esticados e a mexer. Em Portugal, talvez para ganhar tempo, por vezes ouço «brigado» e «tubrigada». Não restam dúvidas de que estas formas de boa educação não são as mais aconselháveis. Mas quem somos nós para lutar contra as massas populares, que vão estabelecendo, como sempre fizeram, os modos e os usos da língua? Não nos deixemos influenciar e não seremos invadidos pelos seus costumes.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 2-12-11

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publicado às 18:42