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por Carla Hilário Quevedo, em 05.05.13

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publicado às 19:31

Jantar na Casa Branca

por Carla Hilário Quevedo, em 05.05.13
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Todos os anos, o Presidente dos Estados Unidos convida os correspondentes da imprensa na Casa Branca, em Washington, para um jantar. O evento é único no mundo, porque não se resume a um convívio público e amigável entre governantes e jornalistas. É, além disso, um espectáculo que também conta com a presença de humoristas e actores de Hollywood e que é apresentado por um apresentador escolhido para a ocasião. O jantar conta com a participação do próprio Presidente e do Vice-Presidente dos Estados Unidos. Na verdade, não se trata só de uma presença, mas de uma participação activa no evento, com discurso, piadas e vídeos.

 

Mas antes de referir a mais recente franja de Obama e da sua excelente interpretação de si próprio como Daniel Day-Lewis, voltemos ao início, a 1914. Tudo começou com o boato de que o Presidente Woodrow Wilson queria organizar conferências de imprensa na Casa Branca com a presença de jornalistas criteriosamente seleccionados por um comité do Congresso. Ninguém foi capaz de confirmar a informação e um grupo de jornalistas decidiu criar a Associação de Correspondentes da Imprensa na Casa Branca para controlar essa escolha. O primeiro jantar aconteceu em 1920, que, quatro anos depois, recebia como convidado o Presidente Calvin Coolidge. A partir daí, foram raras as ocasiões em que o jantar não se realizou. Os motivos foram sempre inadiáveis, como a morte de um Presidente (o caso de William Howard Taft, em 1930) ou durante a guerra. Em 1942, o jantar foi cancelado por causa da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra. No ano seguinte, o próprio Presidente Roosevelt comprou o bilhete de entrada e houve senhas de racionamento distribuídas por todos.  

 

Mas a tradição de juntar políticos, jornalistas e artistas na mesma sala faz parte do evento desde o início. Em 1954, Irving Berlin cantou uma versão do tema que fizera para a campanha de Eisenhower, dois anos antes. "I Still Like Ike" não se encontra em lado nenhum, mas o tema original "I Like Ike" pode ser ouvido no YouTube. Os jantares aconteciam sem a presença das mulheres, proibidas de entrar naquele Clube do Bolinha. A reclamação pública foi apresentada pela jornalista Helen Thomas, em 1961, que organizou um jantar à parte para as mulheres afastadas da sala principal. No ano seguinte, John F. Kennedy acabou com a proibição da entrada às mulheres e, em 1963, Barbra Streisand seria a convidada de honra, com apenas 23 anos. Kennedy pediu-lhe um autógrafo e tratou-a por "boneca".

 

A partir da década de 80, o jantar passou a ter um apresentador principal, além do habitual discurso do Presidente. Este ano, Conan O’Brien foi o escolhido. A apresentação está integralmente disponível no YouTube. São 27:40 de sofisticação e pura inteligência, em que ninguém ali presente é poupado. Quanto a Obama, sabemos que não há mais "cool" e que tudo lhe fica bem, até a franja que diz ter copiado da mulher para um mandato com novas exigências.

 

O jantar dos correspondentes da imprensa na Casa Branca é mais divertido do que muitas cerimónias de entrega de Óscares. Mas, por favor, não cedam nunca à tentação de organizar qualquer coisa vagamente parecida em Portugal. 

 

Versão do texto publicado na edição de fim-de-semana do i, Loja de Porcelana, 4-5-13.

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publicado às 19:22