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Perfeito só Deus

por Carla Hilário Quevedo, em 02.06.13
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O último Prós e Contras, que pretendia esclarecer os espectadores sobre a lei da co-adopção, que, lembro, já foi votada na generalidade, não serviu para tornar o tema claro para quem tivesse dúvidas. Entre gritos e interrupções, o ponto alto aconteceu quando o Bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, exerceu bullying sobre uma mulher grávida sentada na plateia, pondo em causa a sua decisão de engravidar. Saúdo a reacção heróica da mulher na resposta ao que era uma abordagem inaceitavelmente violenta. Lamento a falta de intervenção da moderadora, que perdeu uma boa oportunidade de lembrar que uma discussão de argumentos não é um combate de boxe.

 

Talvez embalado pela defesa emocionada que fez de óvulos e espermatozóides, Marinho Pinto escreveu um artigo intitulado O momento mais belo da vida, publicado no Jornal de Notícias. Ficámos assim a saber que, no mundo de Marinho Pinto, a Natureza é perfeita, mas não é uma criação divina. Esta “perfeição” está no que diz ser “a evolução da matéria” e a “complexidade” do mundo. Em marinhopintês, “complexo” é sinónimo de “perfeito”. Porém, não explica como é que a evolução, por definição inacabada, pode ser perfeita. Se é perfeito, não muda nem evolui. Em última análise, é perfeito o que está morto. Ou o que é imortal. Seja como for, a perfeição não é própria do mundo terreno, perecível, necessariamente imperfeito.

 

Mas Marinho Pinto é um homem sensível, que procura a beleza no ser humano “retirado todo sujo da vagina ensanguentada”, que passa “de feto a pessoa, ou seja, adquire personalidade jurídica”. Ah, a exaltação do Direito quando menos se espera... E a beleza também está na dor do parto (epidural é para maricas) que se transforma na alegria da mãe (pena a depressão pós-parto) ao ver o bebé (e o pai, onde está?). Até aqui, apesar do estilo de filme de terror, dir-se-ia que Marinho Pinto estava a fazer uma glorificação da maternidade. Mas o próprio deve ter pensado que assim também era demais. Voltando à beleza do parto: “E esse momento é belo também porque a mulher que berrava de dores passa a rir-se de alegria e beija pela primeira vez esse filho (em outras espécies animais, as mães são ainda mais autênticas pois lambem demoradamente os recém-nascidos)”. O ser humano, que até era no início do seu texto o mais complexo (perfeito) dos animais porque tinha cérebro, acaba por não estar à altura do “momento mais belo da vida”. A mulher dá à luz, mas isso não é suficientemente “natural” para Marinho Pinto. Mais autêntica é a fêmea não humana que lambe a cria “demoradamente”. Um golfinho fêmea bate qualquer mulher aos pontos. Nem os activistas radicais de defesa dos direitos dos animais se lembrariam desta. Se o biocentrismo fosse uma religião e Peter Singer o seu profeta, Marinho Pinto seria a sua Al-Qaeda.

 

Por último, Marinho Pinto informa-nos do seguinte: “Nunca esquecerei o momento em que nasci e, sobretudo, nunca esquecerei o primeiro beijo que a minha mãe me deu”. Proponho que se use uma parte dos fundos do QREN para se estudar o cérebro do Bastonário. Com uma memória tão prodigiosa, será certamente possível, através de hipnose, recuperar a lembrança daqueloutro momento tão belo em que o espermatozóide penetra no óvulo.      

Publicado na edição de fim-de-semana do i, Loja de Porcelana, 1-6-13.

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publicado às 19:34