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Conversas de bairro

por Carla Hilário Quevedo, em 04.06.13
A Padaria Portuguesa e a produtora Vende-se Filmes tiveram a excelente ideia de nos mostrar partes do quotidiano dos clientes num documentário de cinco minutos. Só não me apanharam a mim porque não moro na Graça, o bairro eleito para a realização do filme. São momentos encantadores, como a vida ela mesma só consegue ser quando vista através dos gestos e das conversas dos outros. Mas aquelas pessoas também somos nós. Vamos tomar um café, elogiamos os pastéis de nata, agora levava quatro bolas de Berlim, daquelas pequeninas, e trocamos duas palavras com o empregado sorridente. Ou ficamos juntos numa mesa a contar histórias de quando íamos à Foz do Arelho, do ciclone, quando foi, a marcar encontros, a ouvir a nossa amiga a queixar-se dos filhos enquanto pensamos noutra coisa. Somos mais ou menos parecidos na rotina, parecidos no desejo de proximidade com os outros. Não é comum um documentário de cinco minutos ser tão comovente, pois não?

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 31-5-13

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publicado às 19:38

Modo de vida

por Carla Hilário Quevedo, em 04.06.13

"Mildness is the mean concerned with anger. (...) The person who is angry at the right things and toward the right people, and also in the right way, at the right time, and for the right length of time, is praised. This, then, will be the mild person, if mildness is praised. For if mildness is something to be praised, being a mild person means being undisturbed, not led by feeling, but irritated whenever reason prescribes, and for the length of time it prescribes. And he seems to err more in the direction of deficiency, since the mild person is ready to pardon, not eager to exact a penalty."

 

Aristotle, Nicomachean Ethics, IV, 5, trans. by Terence Irwin, Indianapolis: Hackett, 1999, p. 61.  

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publicado às 14:45

Arendt em Lisboa

por Carla Hilário Quevedo, em 04.06.13

A ideia de organizar um festival de cinema de temática judaica no São Jorge, em Lisboa, não podia ter sido melhor. O ponto alto aconteceu com a exibição do filme de Margarethe von Trotta, sobre a cobertura de Hannah Arendt para a New Yorker do julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. A estreia do filme aconteceu em Lisboa, antes mesmo de chegar a Nova Iorque, segundo nos informou Elena Piatok, directora executiva do certame. O filme é notável porque mostra as consequências de dizer «a verdade toda» de que Arendt fala nos artigos, mais tarde transpostos para um livro que existe em tradução portuguesa. E «a verdade toda» é incómoda. Por isso não pertence à política, mas à filosofia. A defesa de Arendt do conceito de mal radical, praticado pelos «imbecis», como Eichmann, não convenceu. Mas o seu contributo para a discussão é inestimável. Os humanos não são diabos nem monstros. São capazes de actos monstruosos. São responsáveis pela sua criminosa estupidez.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 31-5-13

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publicado às 14:35