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Morreu Tony Soprano

por Carla Hilário Quevedo, em 23.06.13
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A notícia da morte do actor James Gandolfini, aos 51 anos de idade, pode ter sido esperada por David Remnick, na revista The New Yorker, mas o mesmo não aconteceu comigo. É provável que a diferença esteja no que cada um via na mesma pessoa. David Remmick vê-lo-ia como o actor James Gandolfini, amante de charutos e boa vida, com uns quilos a mais, enquanto eu o via como Tony Soprano, o chefe da máfia em New Jersey, casado com Carmela Soprano, pai de Meadow e A. J., paciente da Dr.ª Jennifer Melfi. Era proprietário do Bada Bing e matou, entre vários, o violento Ralph Cifaretto com as próprias mãos. Tony Soprano não morreu no final da série criada por David Chase, por isso não havia razões para esperar a sua morte. A série acabou com o núcleo duro da família Soprano a jantar no Holsten’s, que até reservou uma mesa em sua homenagem na noite em que se soube que Tony nunca mais passaria por ali.

 

A colagem de Gandolfini a Soprano valeu-lhe o epíteto de "génio", o que compreendo quando quem o diz é David Chase, autor d’Os Sopranos. Mas James era tão perfeitamente Tony que acabou por não representar mais nenhum papel na sua carreira. O seu desempenho pouco marcante noutros papéis faz com que nem sequer nos lembremos que participou no mais recente Zero Dark Thirty, de Kathryn Bigelow. Faria certamente de Soprano, mas de farda militar. Seguindo o hábito para santificar aqueles que já foram heróis, em cada obituário de Gandolfini é repetido o inevitável elogio às suas capacidades de representação. Como se ser confundido com uma personagem tão complexa como Tony Soprano não fosse suficiente. Sean Connery, como 007, ou Charlton Heston, como Moisés, são casos parecidos ao de James Gandolfini, como Tony Soprano. Cada um, vivo ou não, atingiu a imortalidade à sua maneira.

 

David Chase contou ao Telegraph que James Gandolfini se impressionava com a "crueldade" de Soprano, o que muito me surpreendeu. Tony Soprano era "um soldado", como o próprio diz no nono episódio da segunda temporada à não menos extraordinária Jennifer Melfi. E um soldado faz o que tem a fazer, obedece a ordens, rege-se por um código, não anda à deriva, nem é arbitrário na sua conduta. Logo, não pode ser cruel. Como Ralph Cifaretto, por exemplo, que mata uma stripper do Bada Bing (“he disrespected the Bing”) por causa de uma piada ou que incendeia a cavalariça e matar a égua de Tony, Pie-O-My. Ralph existe para marcar uma diferença importante entre o homem cruel e o pater familias deprimido, vítima da mãe, Lívia (escolha interessante de nome), que conspira com o Uncle Junior para o matar. Tony Soprano é um criminoso, mas não é cruel. À crueldade reagimos com desprezo. Ora, Tony é amado.

 

Até na morte, James Gandolfini oferece uma possibilidade de solução para Tony Soprano. Lembremos que Vito Corleone (Marlon Brando) morre a brincar com o neto no jardim, e Michael Corleone (Al Pacino) morre de velho, sentado no pátio de um convento no sul de Itália. Tony Soprano morreu em Itália, de repente, de morte natural. O fim só falha por ter sido prematuro.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, Loja de Porcelana, 22-6-13

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publicado às 18:46