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Por outro lado

por Carla Hilário Quevedo, em 09.10.13

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publicado às 16:08

Clientela selecta

por Carla Hilário Quevedo, em 09.10.13

Um leitor da Slate perguntou ao editor de economia, Matthew Yglesias, por que razão Walter White, o professor de Química que se torna fabricante de metanfetaminas na série Breaking Bad e faz uma fortuna com a droga, com os problemas adjacentes de lavagem e armazenamento do dinheiro, não põe o dinheiro nas ilhas Caimão ou na Suíça. Yglesias, com desassombro profissional, explica que os bancos na Suíça e nas famosas offshores foram feitos para os ricos fugirem aos impostos ou para maridos e mulheres que querem evitar divórcios custosos. Estes bancos têm de conhecer, pelo menos oficialmente, a origem do dinheiro. Os terroristas, mafiosos, narcotraficantes ou ditadores não são os clientes adequados. Os bancos suíços responsabilizam Hollywood pela percepção fraudulenta e paradisíaca que deles tem o comum dos cidadãos. Não sei se o leitor terá ficado satisfeito com a resposta. Eu não fiquei. E Hollywood não tem nada a ver com isso.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 4-10-13

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publicado às 16:02

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 09.10.13
Walter White aka Heisenberg aka Bryan Cranston

 

... há dias, Pacheco Pereira falava no Ponto/Contraponto sobre Breaking Bad, dizendo que se trata de uma série sobre um professor de Química que "se torna mau". Fiquei a pensar nesta formulação das coisas, que é habitual, mas que sempre me pareceu insuficiente. Não acredito, por vários motivos, que uma pessoa se torne outra que nunca foi de alguma maneira. Caso contrário, como explicar reacções tão diferentes de pessoas em situações parecidas? É certo que Walter White poderia ser a excepção numa pluralidade de diferenças. E ele é a excepção por excelência na medida em que é uma personagem de ficção, que nos mostra uma possibilidade, bastante atractiva para alguns nos tempos que correm. Só me parece que a interpretação desta possibilidade perde muito quando se opta por explicações sociológicas ou políticas. A questão é que Walter White tinha o ânimo e a amoralidade necessários para ser aquilo que se tornou. Como sabemos isto? Há uma cena reveladora, penso que algures na segunda temporada em que Walter se lembra do início da sua vida conjugal. Leva Skyler para a casa onde irão viver e fala com determinação de uma vida próspera para os dois. Walter chega àquela cena anos depois de ter sido enganado pelos dois sócios numa empresa que fundara, Gray Matter Technologies, tendo vendido a sua participação por uns míseros cinco mil dólares. As suas ideias tinham sido roubadas por pessoas que pensava serem da sua confiança. A sócia era sua namorada, o sócio, amigo de Walter. Tinham-se ambos apoderado do que ajudara a fundar, e, como se a humilhação não fosse suficiente, tinham casado um com o outro. Walter fica com um enorme ressentimento, que tenta esconder ou ultrapassar na sua nova vida com Skyler. Parece que pode recomeçar, que tem uma nova oportunidade de tudo ser como quer, perfeito como o produto que mais tarde "cozinhará". Mas há mais más notícias. O primeiro filho nasce com paralisia cerebral. Não é por acaso que Walter White Jr. tem uma deficiência. É uma machadada forte no temperamento de Walter. As circunstâncias sufocam a sua ambição, e Walter passa a viver na clandestinidade como professor num liceu. O diagnóstico de cancro é o terceiro ataque que sofre. E à terceira não há disposição que resista.

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publicado às 08:47