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por Carla Hilário Quevedo, em 03.11.13

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publicado às 17:32

Sem perdão

por Carla Hilário Quevedo, em 03.11.13

"O problema de algumas mulheres é que ficam excitadas por nada e depois casam com ele". A frase espirituosa pertence à cantora Cher, que um dia se excitou por "um nada" chamado Salvatore "Sonny" Bono. O casamento conturbado, com suspeitas de violência doméstica, durou 12 anos.

 

Longe de ter um fim está aquilo a que muitos se referiram depreciativamente, como "a novela Bárbara/Carrilho". Infelizmente, não estamos a assistir a uma novela, mas a um caso real de violência exercida por um homem à sua mulher e mãe de dois dos seus filhos. Há três aspectos neste caso que merecem ser analisados com mais detalhe:

 

1. responderia à ideia de a vida dos outros não dever ser discutida na praça pública com um vigoroso "depende". Se isso poderá ser verdade para decisões íntimas e opções que não dizem respeito a ninguém, o mesmo não pode ser aplicado quando falamos de violência doméstica, um problema grave na sociedade, que, por isso mesmo, não diz só respeito ao casal. O mesmo se passa para situações de abuso físico e psíquico, por uma razão fácil de perceber: a família não é propriedade do homem. Pessoas não são coisas, que se podem trocar, vender ou partir. Se um homem é violento com a mulher (ou com os filhos), esse é um tema que diz respeito à sociedade. Há mesmo um dever de falar sobre o assunto, na medida em que a discussão retira ou, pelo menos, atenua o estigma que recai sobre a queixosa, e que faz, aliás, com que demasiadas vezes desista da queixa.

 

2. Responderia aos cépticos sobre a queixa de Bárbara Guimarães, que, recordo, se manteve calada durante este tempo, respeitando os seus filhos, um deles com nove anos, que vai à escola e percebe tudo, que não preciso de mais provas sobre a violência de Carrilho. Para mim, que tolero pouco, é certo, o que Carrilho tem vindo a dizer na imprensa é suficiente para perceber que se trata de alguém que não olha a meios para destruir outra pessoa. A violência física está presente na tentativa de arrombamento da casa, sob a desculpa de que queria ver os filhos. Às dez da noite, acompanhado de um grupo de seguranças e de um serralheiro. A violência está presente nas declarações incriminatórias do próprio Carrilho, quando se refere às nódoas negras da mulher, que "caiu" por estar "sistematicamente alcoolizada". Duvido mesmo muito que Bárbara Guimarães se dedique a actividades etílicas continuadas, mas não resisto a dizer que eu, no seu lugar, estaria "sistematicamente alcoolizada" se fosse casada com Carrilho.

 

3. O terceiro aspecto diz respeito à ideia de que o homem "perdeu a cabeça" ou que sofrerá de "uma doença mental”. Não sendo especialista na cabeça dos outros, diria que, pelo que vejo, estamos perante uma pessoa consciente dos seus actos, que tem prazer no que está a fazer. Podem entretanto pôr-lhe o rótulo médico que quiserem que nada disso nos deve distrair das evidências de uma má formação moral e individual. 

 

Por último, gostaria de dizer àqueles que se espantaram em público por "um filósofo" ter este comportamento, que têm uma visão optimista e deslumbrada sobre educação em geral e a Filosofia em particular. Primeiro, o estudo só melhora quem pode ser melhorado. Não são os livros (nem os outros, nem os acontecimentos) que tornam uma má pessoa numa boa pessoa, porque as pessoas lêem o que são. Quanto à Filosofia, trata-se de uma actividade ou de um modo de vida que requer implacabilidade. O "amor à sabedoria" não inclui bombons e flores. Há uma brutalidade intrínseca à Filosofia, que "procura" a verdade. Mas essa busca não é violenta. Pode ser árida, mas não é violenta.

 

Uma coisa é certa. Depois deste caso, nada, em vários aspectos, será como dantes.  

 

Artigo publicado na edição de fim-de-semana do i, 2-11-13.

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publicado às 17:20