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Sabemos mais

por Carla Hilário Quevedo, em 10.11.13

Um artigo (o primeiro de dois) publicado na última edição da The New York Review of Books, da autoria de Mark Lilla, Professor de Humanidades na Universidade de Columbia, com o título Arendt & Eichmann: The New Truth, acrescenta dados importantes para recentrar a discussão acerca da teoria de Hannah Arendt sobre a "banalidade do mal" e mesmo para a nossa interpretação do filme recentemente estreado de Margarethe von Trotta.

 

O texto tem dois pontos fortes que parecem desligados, mas que, no meu entender, não estão. Lilla critica a opção de von Trotta de apresentar Arendt como uma mulher que responde assim ao marido, que lhe diz que tem de a deixar sozinha "porque uma filósofa tem de trabalhar": "Uma filósofa não pode trabalhar sem beijinhos". O pormenor íntimo irritou o Professor de Columbia, que, deste modo, contribui para a ideia popular de os filósofos serem semi-deuses, que de vez em quando se reúnem para discutir os assuntos lá deles. Se houver verdade neste preconceito, que haverá, então o simples facto de uma filósofa se atrever a fazer Filosofia, tomando o caso de Eichmann como exemplo, nas páginas da revista The New Yorker terá sido suficiente para o ataque violentíssimo que sofreu dos seus amigos e dos seus pares.

 

Porém, Arendt parecia estar a ter a clareza necessária para analisar o caso. E a clareza, por definição, não salva ninguém. Foi, apesar disso, atacada por não defender os judeus; por sustentar que o mal, por ser banal, se encontrava disseminado tanto nos carrascos como nas vítimas. Arendt acusou os conselhos judaicos de "excesso de organização" durante o Holocausto, facilitando assim o genocídio. A acusação estava baseada nos testemunhos da colaboração de judeus com os nazis nos campos de concentração, que foram analisados por Arendt durante o julgamento.

 

Mas o que parecia claro, os testemunhos, a fraca figura de Eichmann, e um dever com a verdade, terão levado Arendt a cometer um erro de percepção. Margarethe von Trotta retrata bem o desprezo de Arendt durante o julgamento. E o seu desprezo tê-la-á levado ao engano. Mark Lilla refere as conversas gravadas de um nazi holandês, Willem Sassen, com Eichmann, na década de 50, na Argentina. Ao que parece, só agora, graças à recolha e edição da académica alemã Bettina Stangneth temos acesso ao conteúdo destas gravações. Lilla cita uma passagem de uma das conversas, publicada na obra Eichmann vor Jerusalem: Das unbehelligte Leben eines Massenmörders (Zürich: Arche, 2011). Nela Adolf Eichmann lamenta não ter morto ainda mais judeus. Lamenta não ter sido um funcionário, um burocrata, ainda mais eficaz. Lamenta que a Solução Final não tenha sido levada a cabo até ao fim.

 

Arendt não tinha conhecimento destas conversas. É certo que são um dado importante nesta história, mas o que Arendt conseguiu com o seu provável engano foi muito mais importante. Mostrou que a Filosofia é apedrejada quando sai à rua. A começar pelos filósofos que nunca se atreveram a pensar.  

 

Texto publicado na edição de fim-de-semana do i, 9-11-13.

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publicado às 20:10

Dos Antigos

por Carla Hilário Quevedo, em 10.11.13

Cartoon instagramado da revista The New Yorker

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publicado às 19:56