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Por falar em IKEA

por Carla Hilário Quevedo, em 17.11.13

Uma das amantes do treinador Sven-Goran Eriksson veio a público dizer o seguinte sobre ele: "Sex with Sven was as ordered and functional as an Ikea instruction manual. Putting together a Billy bookcase would have probably left me more satisfied". Está tudo normal aqui. A mulher está despeitada e faz uma declaração venenosa, com alguma graça, em público sobre o ex-amante. 

 

Como penso que a blogosfera deve ser didáctica, num momento em que vemos homens a fazer declarações inaceitáveis sobre mulheres, nomeadamente sobre as ex-mulheres, é importante referir que o despeito em público não é um direito masculino. Na história da Humanidade nunca foi e há razões para isso. Podem chamar-me reaccionária, mas mesmo que nos tornemos todos iguaizinhos, meio amorfos, um homem não se queixa da mulher em público. 

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publicado às 18:00

Assuntos de bricolage

por Carla Hilário Quevedo, em 17.11.13
Harlem Shake num IKEA algures

 

A partir do que imagino ter sido a revolução sexual dos anos sessenta, os casais começaram a discutir sobre a divisão das tarefas domésticas. O homem parece que não “ajudava” em casa, como ainda não "ajuda" na maior parte dos lares dos países subdesenvolvidos como o nosso. Nesses lares em que se fala em "ajuda" à mulher, que, como sabemos, por causa da sua forma anatómica, dos níveis de estrogénio e de uma história de milhares de anos que a remeteram "naturalmente" para a chatice das lides domésticas, não se fala de bricolage. Noutros lares, mais urbanos e neuróticos, as discussões conjugais são causadas por idas ao IKEA e por tentativas falhadas de montagens de móveis a dois.

 

Aconteceu há dias na Suécia, num local não identificado pela Time, a polícia ter sido chamada à uma da manhã por causa de desacatos num apartamento. A causa da discussão conjugal parece ter sido a montagem de um móvel do IKEA a horas tardias, à qual se juntou o choro de uma criança acordada pelo comportamento irracional dos pais. Qualquer casal sabe que montar um móvel do IKEA é um risco que deve ser corrido apenas por uma pessoa, completamente sozinha em casa, de preferência de manhã, para ter o resto do dia para recuperar do trauma. Começar a montar um móvel depois do jantar em família é meio caminho andado para o divórcio. Talvez estas discussões façam parte do processo de igualdade no casal. Têm os dois voto na matéria quando se trata de parafusos. O departamento de carpintaria, antes ocupado pela parte masculina do casal, porque, como sabemos, há uma relação directa entre os níveis de testosterona e o talento para a bricolage, conta agora com a presença opinativa da mulher. Mas, na verdade, o problema conjugal começa antes da montagem do móvel. Começa na ida ao IKEA e na escolha da mobília.

 

Num dos episódios mais divertidos de 30 Rock, Liz Lemon (Tina Fey) e o namorado Criss (James Mardsen) decidem festejar o dia de São Valentim, mas para isso precisam de comprar um mesa de jantar. Liz tem a consciência perfeita de que a ida ao IKEA pode acabar com o namoro. À entrada da loja, pergunta ao namorado se compreende as consequências daquela decisão. Ao mesmo tempo, um casal de idade tem uma discussão feroz sobre cortinados e o receio aumenta. Há um teste ao relacionamento que está prestes a acontecer. Depois de entrar naquele depósito de tralha pronta a montar, a vida pode não ser a mesma. Como se o divórcio estivesse à espreita à entrada da loja e esfregasse as mãozinhas de satisfação sempre que visse um jovem casal cheio de sonhos para a casa nova.

 

A solução é, como em tanta coisa na vida, mais fácil do que parece. No caso daquelas pessoas (não vou dizer nomes) que fazem de uma ida ao IKEA uma viagem à Disneylândia (inclui deitar-se nas camas, sentar-se nos sofás e nas cadeiras e, sobretudo, em apalpar tudo quanto é mesa, lençol e peluche), o melhor é ter um parceiro à altura. Se não estiver para aí virado, o melhor que há a fazer é ligar às amigas com a mesma orientação festiva. Quanto à montagem, a decisão sábia consiste em gastar 15 ou 40 euros. Uma pechincha se compararmos com as dores de cabeça que uma ida a uma loja pode trazer.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 16/17-11-13.

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publicado às 17:46