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Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 02.02.14

The Heat (adorei, mas podia ter menos uns bons vinte minutos).

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publicado às 17:44

A minha cidade

por Carla Hilário Quevedo, em 02.02.14
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Sou lisboeta e moro em Lisboa. Tenho, sobretudo porque gosto de morar aqui, relativamente à cidade que é minha, um sentimento de propriedade. É a minha casa, que partilho com cerca de um milhão de pessoas, mais várias tantas que chegam e partem em dias. Não escolhemos o sítio onde nascemos. Mas temos uma palavra a dizer quando se trata do sítio em que escolhemos viver. E escolhemo-lo por várias razões. Há quem se fixe em Lisboa porque quer fugir da guerra e da fome no seu país. Há quem more aqui há mais de trinta anos porque numa vinda em trabalho se apaixonou por uma mulher e ficou. Conheço vários casos. Os autóctones normalmente gostam de Lisboa, mas por vezes também querem partir, arejar, ver outras paragens durante um tempo. Moram fora uns anos porque querem, porque ganham mais noutros lados, e depois voltam. Não sei se será assim com outros habitantes de outras cidades portuguesas, mas os lisboetas regressam porque são fãs da sua cidade. E como qualquer fã, não são apreciadores de elogios de estranhos à sua amada Lisboa.

 

Há dias falava sobre Lisboa com uma estudante grega que estuda em Londres e que decidiu vir para cá escrever a sua tese de doutoramento, quando lhe disse que tinha gostado muito de Atenas. Ficou surpreendida porque "Lisboa é a cidade mais bonita do mundo, a mais encantadora". Tinha planeado tudo para vir cá passar uns tempos e estava muito feliz por estar aqui. Tinha uma vida doce, a escrever nos cafés, sem o caos ateniense à porta de casa. Aceitei o elogio como qualquer anfitriã orgulhosa da sua casa, mas ao mesmo tempo uma espécie de diabinho na minha cabeça gritava: “Olha a grande novidade!”. Claro que Lisboa é uma grande cidade, a mais doce, a mais encantadora, a mais humana, no sentido em que a circulação automóvel não é complicada, mesmo na hora de ponta. Quem não acredita, pode experimentar o centro de Atenas a qualquer hora. Tem monumentos, palácios, palacetes. Não tem a Acrópole, é certo, nem o extraordinário Sounion ali perto. Mas nós só temos um Martim Moniz, embora mais para Telheiras haja várias Almirantes Reis.

 

Mas para que comparo o incomparável? Que insegurança súbita se abateu sobre mim? O que me deu para defender Lisboa como se estivesse a ser atacada? A culpa é da CNN e do seu artigo a elogiar Lisboa como a cidade mais "cool". Mas quem são estas pessoas que agora se põem por tudo e por nada a falar da minha casa como se fosse delas? Como se a conhecessem melhor do que eu? Como se "gostar de Lisboa" não fosse o requisito básico exigido à pessoa civilizada? É possível não gostar? Então para quê tanto alarido?

 

Para a CNN, Lisboa é "cool" porque a vida nocturna é melhor do que em Madrid. Só isto já me maça, até porque provavelmente é falso. Depois falam da gastronomia, o que me entedia. É óbvio que se come muito bem em Lisboa. É preciso publicitar uma obra-prima como o Belcanto? É como dizer que a Mona Lisa é belíssima. Duh! Os museus, os castelos, as ruas e as praias são louvados, como se a sua existência tivesse de ser promovida. Se calhar, até tem, mas não é preciso fazer tanto alarido dos elogios dos outros, alguns nem nunca viram o mar. Quando a CNN elogia Lisboa, não faz mais do que a sua obrigação. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 1/2-2-14. 

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publicado às 17:35