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Outra pessoa

por Carla Hilário Quevedo, em 23.02.14
App Hipstamatic com lente Jane e rolo Ina's 1982

 

Não existe actividade mais complicada em Portugal do que trabalhar. Tudo é extremamente difícil de concretizar, os tempos são lentos e as pessoas fazem o que podem. Acontece que, muitas vezes, aquilo que podem fazer ou não serve ou não é suficiente. Podem reformar o país de alto a baixo, que não reformam, mas ninguém poderá fazer com que o próximo, quer seja funcionário público ou de uma empresa privada, por exemplo, responda a um email em tempo útil. As poucas pessoas que o fazem, tão raras como os ursos panda da floresta, têm diariamente de se debater com estruturas pesadas, burocráticas ou apáticas, que não valorizam capacidades fundamentais para a criação de riqueza. Quase todas as empresas têm falhas graves de comunicação. Se forem pequenas, o risco de as questões serem tratadas de modo doméstico é enorme. Se forem grandes, funcionam quase como o Estado, perdidas entre gabinetes e departamentos, demoradas a decidir. Digo isto porque, cada vez mais, aparece um discurso que condena Portugal a uma pioria de vida “por causa da crise”. O problema é mesmo ninguém perceber quando é que Portugal foi diferente.

 

Numa cena do excelente filme da HBO, Behind the Candelabra, de Steven Soderbergh, sobre a vida de Liberace, com Michael Douglas e Matt Damon, a mãe do artista excêntrico, de temperamento complicado, Frances Liberace, interpretada por Debbie Reynolds, diz ao filho num momento difícil que a vida não é uma questão de sorte; “é o que somos”. Embora acredite na arbitrariedade da sorte, porque não há nada estabelecido, nem determinado, nem “um destino a cumprir”, além de não, não estar tudo ligado; e, ainda assim, há coisas inesperadas que acontecem, para o bem e para o mal, acredito também que “o que somos” se reflecte nas vidas que vivemos. Só temos sorte se a soubermos reconhecer. E para a reconhecermos temos de “ser” alguém que reconhece a sorte quando a vê. Não temos realmente de “fazer” nada. O problema, neste caso, não é de acção. Ou melhor, a acção é o que constitui o carácter, e por isso é suficiente.

 

O que tem isto a ver com Portugal e a sua maneira esquisita, lenta, desleixada, de funcionar no trabalho? Tem tudo. Em vez de sermos competitivos, somos rivais. Em vez de sermos eficientes, fazemos favores. Em vez de sermos profissionais, odiamos o chefe. Em vez de sermos profissionais, humilhamos o funcionário. Pergunto àqueles que se surpreendem com a nossa pobreza, como o podem fazer, quando desde sempre fomos tão pouco distantes no que não interessa, pouco empáticos no essencial, e tão pouco livres no resto. Não é preciso ver gráficos para sabermos que os países mais autocráticos são também os mais pobres, os mais corruptos, com menos igualdade de oportunidades. Portugal é uma democracia há quarenta anos, mas ainda não aprendeu realmente a funcionar de acordo com o que se espera de um povo livre.

 

Na verdade, o que me surpreende e entristece no meu país é a sua contínua incapacidade de perceber que a riqueza e o bem estar estão ao seu alcance. E que para isso não tem de mudar de vida. Portugal tem só de ser outra pessoa. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 22/23-2-14.

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publicado às 19:25