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Vigiar e pagar

por Carla Hilário Quevedo, em 02.03.14
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O programa Prós e Contras, da RTP 1, é um sucesso por vários motivos, e um deles chama-se Twitter. O que acontece durante a transmissão do programa é um programa paralelo de comentário espontâneo e, por vezes, com muita graça, ao que está a decorrer no ecrã. O tema do último programa, os prós e contras das redes sociais, suscitou curiosidade entre os twitteiros.

 

À medida que a discussão decorria, aumentava a discordância no Twitter sobre o que era dito. A que se deveria uma diferença tão grande de percepção dos mesmos meios? E por que razão havia tanta desconfiança sobre um meio que existe há uma década, neste caso o Facebook, tão fora de moda que até os adolescentes o estão a rejeitar? É uma discussão fora de época. Os problemas apontados, como “a solidão” ou “a perda de privacidade e liberdade”, foram expressos por queixas, o que sugere uma incapacidade de lidar com o que não podem controlar, nomeadamente com a maneira como as pessoas vivem, o que pensam e o que dizem. A discussão, que parece inocente, a respeito das redes sociais (já a ouvimos no aparecimento os blogues) é, quanto a mim, ideológica.

 

A dada altura, os quatro convidados, Rita Ferro, José Magalhães, Marinho Pinto e o padre Nuno Rosário Fernandes concordaram que os insultos nas caixas de comentário dos sites dos jornais eram um dos “aspectos negativos terríveis” desta bandalheira que se chama internet. Marinho Pinto chegou mesmo a propor que se acabasse com o anonimato. Mas não nos deixemos levar pela proposta comunista do ex-Bastonário. Há que devolver a bola com a falta de privacidade que tanto o impressiona mas que lhe deve servir de descanso. Só uma minoria (poderosa, diria Edward Snowden) pode estar anónima na internet. A maioria é identificável por vários meios. Os predadores, ao contrário do que pensam, não estão a salvo na internet. Aliás, é esta a discussão sobre privacidade que interessa.

 

Resumindo, para os desconfiados, há perigos na internet, por isso é preciso ter cuidado. Esta é a base para a discussão sobre predadores. Quando não há perigos, há gente que se porta mal, os “trolls”, que é preciso “educar”. O resto é composto por ingénuos que “não sabem lidar” com as redes sociais, e que também é preciso “educar”. Ou seja, é preciso punir, vigiar, controlar. E cobrar. Segundo as palavras reveladoras de José Magalhães, “sem educação não se vai lá”. Foi neste momento, ou para ser rigorosa, num anterior em que José Magalhães afirmou que era preciso “educar as crianças”, que saltei do sofá para me ir agarrar à carteira.

 

Quando se definem problemas de sempre, com ou sem Facebook, o que se pretende com isso? E o que se faz a uma criança que nasceu com o instinto de tocar em ecrãs? Pespega-se com a dita numa disciplina escolar sobre tralha online, porque a “educação” fará com que não se torne um ingénuo ou um “troll”.

 

Entre a desconfiança reaccionária de Marinho Pinto e o deslumbramento progressista de José Magalhães, não escolho nenhum, mas termos de sustentar programas de educação cívica online pode estar nos planos da esquerda. Aviso os ingénuos, os “trolls” e os outros que é melhor portarem-se bem, senão ainda pagam por isso. E é mesmo através dos impostos.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 1/2-3-14

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publicado às 21:32

Um dia romântico XVII

por Carla Hilário Quevedo, em 02.03.14

The First Time Ever I saw Your Face foi escrita por Ewan MacColl para a sua última mulher, Peggy Seeger. MacColl não concordaria, mas também gosto desta versão de Peter, Paul & Mary

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publicado às 18:00