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Estado do relacionamento

por Carla Hilário Quevedo, em 30.03.14
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Todos os dias vemos notícias de casais célebres que se divorciam. Mas nem todos os dias se inventam novas maneiras de dizer a palavra “divórcio”. Aconteceu esta semana no anúncio de separação da actriz Gwyneth Paltrow do marido, Chris Martin, vocalista da banda mais chata do mundo, os Coldplay.

 

No seu comunicado à imprensa, Gwyneth Paltrow anunciou que o que se iria passar entre o marido e ela nos dias que se seguiriam seria um “consciously uncoupling”, que traduziria sem hesitações por “descontinuidade conjugal consciente”. Sabemos que precisamos de mais palavras em português para descrever o que é dito sucintamente em inglês, daí a expressão mais longa. Ou seja, não estamos perante um divórcio, situação tantas vezes traumatizante, que se traduz por “break up”, o que indica um corte irremediável, uma quebra de laços maritais que não pode deixar de vir acompanhada de dramatismo. Se estivermos, pelo contrário, perante uma asséptica “descontinuidade conjugal”, que ainda por cima é “consciente”, quase podemos respirar de alívio, quem sabe se até fazer uma festa com os amigos vestidos de branco, na praia, com flores na cabeça. A descontinuação é suave como a brisa estival da manhã e não aborrece ninguém. Não há motivos para arrancar os cabelos. É que nem sequer estamos perante uma “interrupção conjugal consciente”. Nesse caso, seria justo deduzir que haveria uma hipótese de “reconciliação”, ou melhor, de “recuperação marital”. A “descontinuidade” que acontece aos nossos batons preferidos é um termo mais preciso para descrever o que não tem remendo nem cura, nem volta a dar, nem ponta por onde se lhe pegue.

 

A descontinuidade da relação conjugal de Gwyneth Paltrow e Chris Martin, que não se divorciam, é preciso adicionar, como o descontrolado comum dos mortais, não é, obviamente, irresponsável. A actriz acrescentou no seu comunicado que o casal descontinuado não se furtará ao exercício da “co-parentalidade”, também ela, como é evidente, consciente. Gwyneth Paltrow não é bem mãe: é co-parente. Chris Martin não é bem pai: é co-pai. Ora se é assim, do ponto de vista dos filhos, que, digam o que disserem, é sempre mais interessante, há espaço para uma relação quase de orfandade, o que poderá ser benéfica para a saúde mental das crianças, tendo em conta as preocupações do casal descontinuado em causa, por muito consciente que seja.

 

A Slate entretanto não perdeu tempo e criou um widget que torna qualquer comum “solteiro”, “casado”, “divorciado” ou “viúvo” numa tentativa de preencher o “não sabe/não responde” do relacionamento amoroso. Basta indicar o seu estado civil para passar a saber o estado do seu relacionamento. Segundo Gwyneth Paltrow, não é “solteiro”, é “profundamente solitário”. Também não é “viúvo”, mas “magnanimamente emancipado”.

 

Com tudo isto, Gwyneth Paltrow só nos quis dizer que não tem pena de ver Chris Martin pelas costas, e vice-versa. Não houve lágrimas, nem drama, nem cenas, logo não houve realmente “divórcio”. Está tudo mais que explicado.   

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 29/30-3-14.

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publicado às 19:33

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 30.03.14

The Hunger Games: Catching Fire (ah, isto sim, é televisão). Frozen (simpático, para meninas).  

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publicado às 19:28