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Algumas comparações

por Carla Hilário Quevedo, em 15.04.14

App PictureShow com filtro Vivid e moldura 135 Reversible sobre imagem com Carrie velha e Carrie nova. 

 

A história de Carrieta White, de Stephen King, cuja publicação data de 5 de Abril de 1974, não me era desconhecida, mas nunca tinha tido lido o livro nem visto o filme de Brian de Palma, de 1976, com o título homónimo “Carrie”. Foi a versão recente da realizadora Kimberly Peirce que me levou ao filme de Brian de Palma e à obra original de Stephen King. A versão de 2013, ao contrário do que dizem as más-línguas, está bem pensada. Mas o mais interessante de ambas as versões é mesmo a obra que as une da autoria de Stephen King.

 

Dizem que “Carrie” é uma história de terror. Para quem não sabe, a telecinésia, como a palavra indica, é a capacidade de mover (“cinésia”, que tem que ver com “cinema”) objectos à distância (“tele” tem que ver com distância: cf. “televisão” ou “telefone”). Carrie é uma rapariga de 16 anos que a dada altura descreve a sua mente como estando “dobrada”, a fazer lembrar o cérebro que se “ajoelha” do monólogo Not I, de Samuel Beckett. Basta que Carrie pense na possibilidade de um objecto ou uma pessoa se moverem para isso acontecer. Num excerto do seu livro On Writing, recentemente publicado no Guardian, Stephen King conta que Carrie “surgiu” depois de ter lido um artigo na Life sobre telecinésia. Existia a crença de que sobretudo as raparigas no início da adolescência, por alturas do aparecimento da primeira menstruação, tinham este poder. A esta ideia juntava-se a memória de um trabalho de Verão num liceu e um balneário feminino com cortinados cor-de-rosa nos chuveiros.

 

Carrie, de Brian de Palma, começa com uma imagem de raparigas no recreio a jogar voleibol. Segue-se a célebre cena do chuveiro, num balneário sem cortinas nem privacidade. Carrie está sozinha, a tomar banho e, de repente, sangue escorre pelas pernas abaixo. Ninguém a está a matar, mas Carrie pensa que está a morrer, e o seu desespero, que resulta da sua ignorância, é um pretexto para a crueldade das outras raparigas. Não lhe atiram facas, como acontecerá numa extraordinária crucificação final com outra protagonista, mas, entre gritos e risos, atiram-lhe tampões e pensos higiénicos. O livro começa, no entanto, com uma notícia de um evento insólito. Uma chuva de pedras caiu sobre a casa onde viviam Margaret White e a sua filha, Carrieta, de três anos. As referências à infância de Carrie e a sugestão de o seu poder ter começado desde cedo como reacção a uma mãe fanática religiosa e a um pai sempre armado com uma Bíblia e um revólver, não aparecem nas versões cinematográficas, mas são exploradas com mestria no livro. A única breve referência surge no início da versão de Kimberley Peirce, com o nascimento de Carrie, que a mãe, no seu estado psicótico, pensa ser um cancro. Em vez de morrer, dá à luz uma filha que atormenta e educa na ignorância.

 

Julianne Moore é uma Margaret White tão aterradora quanto Piper Laurie, mas Chloë Grace Moretz está longe de ser a Carrie imortalizada por Sissi Spacek. Há um pânico constante na Carrie moderna, incrédula mesmo que exerça o seu poder vezes sem conta. Em ambas há delicadeza física e beleza, duas características que Stephen King não previu no seu primeiro romance, mas que Hollywood não teve coragem de assumir. 

 

Dizem que “Carrie” é uma história de terror. Por mim, é só a história de uma rapariga que tenta sobreviver à mãe. Ninguém lhe pode levar a mal.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 12/13-4-14

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publicado às 19:32