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Muito melhor

por Carla Hilário Quevedo, em 20.04.14
App PictureShow com filtro Quad sobre Ricardo "Carlos Miguel" Araújo Pereira

 

O título do novo programa de Ricardo Araújo Pereira pode dar a impressão de que a fasquia está baixa. Afinal de contas, quase tudo será “melhor do que falecer”, sobretudo para quem viu as duas versões de Insidious, dois filmes de terror que retratam o Além como um sítio escuro, mal frequentado e pestilento. Ninguém quer aquilo, mas sobretudo, e agora dirigindo-me aos que acreditam que isto acaba aqui, ninguém realmente quer sair deste vale de lágrimas. A menos que se sofra de uma doença mental, ninguém quer falecer. Daí o título. Acontece que há pessoas que não negam à partida um além que desconhecem. E até pode ser verdade que vamos desta para melhor. Neste caso, a fasquia está altíssima. Melhor do que falecer é rir. E se houver melhor do que rir? Só noutro mundo o poderemos saber. Mas nunca vamos poder contar a ninguém.

 

Mais dúvidas existem sobre ser melhor a liberdade do que a prisão, a coragem do que a cobardia, o pensamento do que a apatia. Ser radical e moralista só fica bem aos muito jovens. Os mesmos radicalismos e moralismos em pessoas mais velhas soam a tentativas desesperadas de se agarrarem a uma juventude que se negam a acreditar que passou. A verdade, ou a vida, não é assim tão simples e isso é bom. Depois de tudo espremido, só não restam dúvidas quanto à necessidade de termos a presença diária de Ricardo Araújo Pereira na televisão em horário nobre. A única estranheza está na ausência dos restantes membros do grupo Gato Fedorento. É uma falta a que nos teremos de habituar. Miguel Guilherme é um excelente actor, que quase não precisa de falar para provocar o riso. Mas é uma novidade para o espectador conservador.

 

Passaram mais de dez anos desde que assisti pela primeira vez ao vivo a um sketch protagonizado por Ricardo Araújo Pereira, numa discoteca em Alcobaça. Não me lembro da ocasião que o levava àquele sítio com José Diogo Quintela, mas em boa hora fui ver o espectáculo dos dois. O sítio foi abaixo quando o Ricardo apareceu a fazer de Bad Boy MC Crazy Motherfucker, o Carlos Miguel da Cova da Moura. Houve pessoas a cair da cadeira quando o Carlos Miguel descreveu uma luta no bairro: “Com uma ponta e mola, rasga a barriga do outro. Começa a saltar à corda com o intestino delgado do rapaz, só com uma mão e a boca, nhm, nhm”. Uma década depois, temos a mesma atitude de surpresa. A graça continua a estar no inesperado, em contrariar as expectativas, nos jogos com as palavras, no gosto pela língua portuguesa. O humor de Ricardo Araújo Pereira é, por isso, intemporal; tão fresco e moderno como Teofrasto.

  

O melhor de “Melhor do que falecer” é ser mais uma prova do talento do Ricardo, que cresce em público da melhor maneira que há, que é a de nos fazer esperar pelo melhor, dando sempre o que esperamos dele, fazendo com que esperemos ainda mais, até fazer do público um monstro de egoísmo e capricho.

 

Dizem que “Melhor do que falecer” faz pensar. Pois, talvez, depois, alguns ou a muitos fará pensar. A mim, faz-me rir à gargalhada e faz-me bem à memória. Só de me lembrar, volto a rir como da primeira vez.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 19/20-4-14.

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publicado às 19:54

Afinal havia outras influências

por Carla Hilário Quevedo, em 20.04.14

George Bush's paintings bear uncanny resemblance to Google images

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publicado às 19:51