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Cabine de leitura

por Carla Hilário Quevedo, em 29.04.14
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É hábito em Portugal elogiarmos tudo o que vem de fora, mas não é habitual adaptarmos o que se faz de muito bom no estrangeiro no nosso país. Felizmente, há excepções e uma delas foi inaugurada esta semana na Praça de Londres, em Lisboa, quem sabe se como uma homenagem à ideia original britânica que deu origem à Cabine de Leitura que agora ali temos.

 

Tudo terá começado há cinco anos na pequena aldeia de Westbury-sub-Mendip, em Somerset, no sudoeste de Inglaterra. Com uma população de cerca de 800 pessoas, a aldeia acordou um dia com uma das cabines telefónicas classicamente encarnada transformada na mais pequena biblioteca do mundo, com cem livros disponíveis para qualquer pessoa requisitar. Os habitantes fizeram fila para requisitar e entregar os livros disponíveis, que variavam entre romances, biografias, livros infantis e de cozinha. A distância da biblioteca mais próxima e a falta da carrinha que costumava servir o local com os livros levaram a que se pensasse numa forma prática e barata de pôr os livros à disposição da população. A ideia era transformar as cabines telefónicas quase abandonadas em locais usados pela comunidade. Já que ninguém usava as cabines para telefonar, ao menos que as usassem para outros fins, tão comuns a todos como ler. Num país em que a leitura é estimulada desde muito cedo, não foi uma surpresa que a nova biblioteca tivesse sido um sucesso. O êxito foi  repetido nas restantes povoações até chegar às cidades, como Londres.

 

A Cabine de Leitura (https://www.facebook.com/cabineleitura?fref=ts) inaugurada esta semana em Lisboa não tem o mesmo horário generoso de abertura do que a da seguramente tranquila Westbury-sub-Mendip, aberta 24 horas por dia, 365 dias por ano, iluminada durante a noite. A localização da minibiblioteca em plena Praça de Londres obriga a um horário mais restrito, das 9h às 20h, de segunda a sábado. O seu funcionamento parece no entanto muito similar. Várias editoras, fundações e particulares doaram livros para o arranque da minibiblioteca. Mas as doações devem continuar para assegurar a rotação dos livros e a variedade. Sempre que se leva um livro, deixa-se outro e seguem-se as regras de deixar o nome, um contacto e o nome do livro no caderno de registos, como numa biblioteca. Há um outro caderno, desta vez de sugestões, onde podem ser deixadas propostas e comentários acerca do funcionamento na nova minibiblioteca. A iniciativa é divertida e optimista. Pretende aliciar as pessoas para a leitura através de uma participação activa na comunidade, o que as une da melhor forma em torno de um interesse comum.

 

A leitura não faz de uma má pessoa alguém em que se possa confiar. Não traz, neste sentido, mudanças morais. Mas tem o poder fundamental de não haver nada que interfira naquele instante em que estamos a sós com um livro. Ser capaz de fazer isto é poder ser independente como ninguém. E é nisto que penso quando se diz que “a leitura melhora as pessoas”. Sim, é verdade. Melhora porque cria um hábito de autonomia de pensamento. Um hábito de liberdade. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 26/27-4-14

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publicado às 19:08