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Um presente radioso

por Carla Hilário Quevedo, em 07.05.14

O escritor e jornalista Bryan Appleyard escreveu na revista New Statesman um artigo delicioso e sábio contra os futurologistas, que, para ele, estão sempre enganados. Depois de expor vários argumentos inteligentes contra neurocientistas e especialistas da era digital, explicou que as conferências TED Talks, entre outras fraudes do mesmo género, são comparáveis a concursos como o American Idol, bem como a outros ramos da futurologia, que têm em comum o anúncio de que o presente é pior do que o futuro. Pior, vêem o futuro como uma realidade melhorada de uma humanidade inalterada: somos os mesmos, mas com mais gadgets e tecnologia mais sofisticada. Appleyard termina o seu texto a citar Samuel Johnson, que afirmou que a nostalgia e a expectativa de um futuro melhor são ambas inerentes à nossa incapacidade de viver o presente com alegria. As lembranças floreadas do passado e a consolação de um futuro melhor são provas mesquinhas da nossa ingratidão.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 2-5-14

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publicado às 23:28

Desumanizar

por Carla Hilário Quevedo, em 07.05.14

Cerca de 230 raparigas foram raptadas de um liceu na Nigéria por um grupo extremista islâmico que condena a educação e a democracia e força as mulheres à miséria e à escravatura. O grupo terrorista Boko Haram não reivindicou o rapto, mas o seu líder, Abubakar Shekau, afirmou que “a educação ocidental é um pecado”. Os raptos de raparigas têm sido frequentes nas escolas da região. O mais recente aconteceu enquanto as alunas faziam um teste de Física que lhes permitiria uma passagem para o ensino superior. Não é certo o número das que conseguiram fugir das carrinhas em que foram metidas à força, mas cerca de 200 continuam desaparecidas. As buscas têm sido dificultadas pela floresta densa e pela apatia das autoridades, pouco interessadas em resolver o caso. A brutalidade dos terroristas encontrou assim um aliado na indiferença dos militares. Nem uns nem os outros as consideram vítimas. Para isso era preciso perceberem que são seres humanos.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 2-5-14

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publicado às 23:26