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O barquinho e a selfie

por Carla Hilário Quevedo, em 12.05.14
App Camera! com predefinição Road Trip e filtro Velvet

Dizem que uma imagem vale por mil palavras. Se é assim, então duas valerão por duas mil. São bem empregadas, no entanto, as palavras que valem a fotografia tirada ao primeiro-ministro sentado num barquinho com uma série de desconhecidos, mais o secretário de Estado da Cultura, Jorge Barreto Xavier, e a selfie de António José Seguro com Martin Schulz et alii. Apesar da abundância visual, nada nos impede de falar sobre elas. Diria até que pelo contrário.

 

Primeiro o barquinho, que me faz logo lembrar aquela canção do João Gilberto: “o barquinho vai, a tardinha cai”. Ao contrário do que acontece com a selfie ambiciosa de Seguro, a imagem do barquinho provoca uma série de perguntas. À primeira não consegui descobrir uma resposta satisfatória. Quem são aquelas pessoas, à excepção das duas que conhecemos? Entre os desconhecidos, só Mário Ferreira, proprietário da Douro Azul, é identificado pela impressa como estando sentado ao lado de Passos Coelho, o que deixa em aberto a possibilidade de os restantes cavalheiros serem três seguranças. Não será demais para um barquinho tão pequeno, ainda por cima no protegido World of Discoveries, um museu interactivo em que se pretende levar os visitantes a “experimentar” os feitos dos portugueses nos Descobrimentos? Mal olhei para a fotografia, imaginei que estariam a celebrar a saída limpa com uma ida aos carrinhos de choque. Seria um festejo adequado ao estado em que está o país. Mas Barreto Xavier não está nada animado. Claro que está sentado atrás, o que é desagradável, porque transmite tudo menos a ideia de proximidade com o poder. É chato uma pessoa dar a alma e o coração pelo seu querido governo, para depois ser despachado para o canto lá para trás.

 

O segurança ao lado parece, no entanto, saber que mal formos deixados à nossa sorte, destroikados, portanto, vamo-nos logo pôr a inaugurar museus interactivos como se não houvesse amanhã, o que na verdade é a disposição certa, porque, a ser assim, não haverá mesmo amanhã. Uma pergunta que a fotografia suscita é: o Museu dos Descobrimentos é privado? Se não, quanto custou aos contribuintes? Infelizmente, não foi tema que interessasse aos jornais.

 

Entretanto, a oposição, que não queria ficar atrás nos festejos do destroikanço e não queria perder uma oportunidade de deixar o governo afundar no seu barquinho, foi logo fazer uma selfie à boa maneira da Ellen para não ficar atrás na patetice. É uma oposição curiosa, de facto. Ao lado direito de Seguro vemos António Costa, muito sorridente, e ao lado esquerdo está o candidato Assis com um sorriso amarelo. Atrás, Schulz, com ar de turista, weeee! Como selfie que é selfie é descarregada no Twitter ou no Facebook, Seguro não hesitou e pô-la na sua página. Estão todos à frente do Start Up Lisboa, também com os olhos postos num futuro de “empreendedorismo de brincar”.

 

É a coincidência das duas imagens no mesmo dia que nos levam a pensar no nosso desgraçado destino: o barquinho de um lado e a selfie do outro. Como se os eleitores fossem tolinhos que olham para os fotos e gostam do que vêem. Pela parte que me toca, honestamente, só me dão vontade de chorar.  

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 10/11-5-14.

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publicado às 19:33