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Vidas passadas não movem moinhos

por Carla Hilário Quevedo, em 18.05.14
App InstaEffects com filtro Metropolis luminoso e autocolantes sobre imagem de inscrição em mármore em exibição no British Museum. As partes apagadas (por damnatio memoriae) referiam-se a Geta, filho do imperador Sétimo Severo.

 

Por uma coincidência feliz, Alexandra Solnado esteve quase para apresentar uma palestra na Assembleia da República sobre como trata doentes através do método revolucionário de “limpar as memórias” na mesma semana em que o Tribunal de Justiça da União Europeia reconheceu o “direito ao esquecimento” na internet. Infelizmente, porém, a Assembleia cancelou a palestra de Alexandra Solnado, impedindo os deputados (os únicos convidados) de saberem como apagar as memórias e assim serem saudáveis para sempre.

 

Porém, a relação entre “esquecer” e “curar” não me desagrada, mas sejamos francos: quem esquece? Ou melhor, como é possível “curar” sem “esquecer”? A pergunta interessa a vários autores mortos de quem gosto. É uma pergunta que o biógrafo Plutarco responderia num dos seus ensaios morais de uma maneira surpreendente: vivendo em público. Há que notar que as diferenças entre público e privado no século primeiro estavam longe de ser as mesmas de hoje em dia. Uma diferença importante também daquele tempo para o nosso era a incapacidade de anonimato, e penso que é a isso que Plutarco se refere quando fala de uma vida escondida ou secreta como a pior que se podia ter. As razões eram simples: uma pessoa de quem nada se sabe, que se esconde, que não participa nas discussões, nunca poderá ser confrontada com os seus erros e, como tal, não corrigirá a sua conduta. De igual modo, também nunca será incentivada nas qualidades que exiba. O argumento de Plutarco leva-me ingenuamente a pensar que talvez gostasse dos nossos tempos e da internet.  

 

Mas basta do que interessa. A partir de agora, os tribunais europeus podem ordenar aos motores de busca que eliminem links para certas páginas, desde que os queixosos provem que a informação não deve estar associada ao seu nome. Tudo começou com uma queixa ao Google de um cidadão espanhol que tinha uma dívida, que a pagou e cujo nome, graças ao Google e afins, continuou a aparecer numa notícia no La Vanguardia. O homem queria apagar o momento da sua vida da internet e, pelos vistos, agora está mais perto de o conseguir. Embora simpatize com o sofrimento de quem teve um problema e não queira viver o resto da sua vida associado a ele, não sei se o “direito ao esquecimento” se deve sobrepor ao direito à liberdade de expressão. A luta, bem sei, com o Google é desigual, mas é legítimo censurar o passado vivido? Pensemos no caso dos políticos, por exemplo. Vão poder exigir que o seu passado seja apagado para refazerem as suas imagens para cada campanha?

 

O pior é que o direito ao esquecimento faz lembrar a damnatio memoriae dos romanos. Vários imperadores e não só foram condenados ao esquecimento depois da morte, porque eram más pessoas ou porque os seus sucessores não queriam que fossem lembrados. Os nomes eram apagados dos monumentos, as estátuas mutiladas, as efígies riscadas das moedas. Agora temos o Google a fazer o mesmo sob a capa de um direito que não é nosso para dispormos dele. Para mais, nenhum condenado ao esquecimento foi de facto esquecido. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 17/18-5-14.

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publicado às 20:47