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Dia da Criança

por Carla Hilário Quevedo, em 01.06.14

De pequenino a olhar para Matisse. Via Hyperallergic.

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publicado às 20:37

Saber ao passado

por Carla Hilário Quevedo, em 01.06.14
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No sábado passado assisti a uma conversa memorável entre Maria de Lourdes Modesto e Miguel Esteves Cardoso, na deslumbrante loja da Vida Portuguesa no Intendente, em Lisboa. O evento fez parte de uma iniciativa de Catarina Portas, que em boa hora organizou um Mês de Maio de MEC, de “celebração da obra de um escritor que nos vem inspirando a todos”, e que começou com o lançamento do novo livro, Amores e saudades de um português arreliado, e que termina hoje, dia 31, às 17h, com uma conversa com Paulo Portas sobre os anos de O Independente.

 

Catarina Portas abriu a discussão com uma pergunta sobre vícios da nossa cozinha e Maria de Lourdes Modesto apontou dois problemas: a falta que faz a passagem de testemunho dos ensinamentos da cozinha tradicional portuguesa de mães para filhas e a falta de supervisão nos restaurantes que vendem pratos de bacalhau à Braz que não seguem a receita, mas que continuam a ter o mesmo nome. A crítica foi acompanhada por Miguel Esteves Cardoso que fez uma analogia com um verso de Camões demasiado engraçada para ser reproduzida aqui. Houve gargalhadas e palmas. A crítica corajosa de Maria de Lourdes Modesto sobre esta praga que se abateu sobre nós, de estarmos a comer frango à Braz, ou ainda pior, de estarmos a comer peixe cozido com legumes, à boa maneira portuguesa, e despachar hambúrgueres e bolonhesas para as crianças, foi acompanhada por Maria Manuel Valagão, que se juntou à mesa. Autora de dois livros sobre gastronomia portuguesa, sobre as suas origens, as plantas usadas, os hábitos de cozinha, etc., Maria Manuel Valagão apresentou o lado bom dos vícios, que consiste no gosto assumido dos portugueses pelos petiscos.

 

A participação do público foi notável, com várias senhoras, e um cavalheiro, a intervir na discussão, contribuindo com histórias de cozinha, partilhando ensinamentos e curiosidades. Uma das perplexidades, ainda sobre o que Maria de Lourdes Modesto dissera sobre a passagem de testemunho, foi a vontade de mulheres hoje entre os 35 e os 45 anos aprenderem a cozinhar. Maria João Esteves Cardoso ofereceu a explicação mais certeira para este interesse renovado pela cozinha tradicional. Muitas dessas mulheres “aprenderam” a cozinhar só por estarem presentes na cozinha quando mães ou avós cozinhavam. Só por terem sido expostas a um hábito, tinham sido capazes de reproduzir certos sabores de que tinham saudades. Era a necessidade de voltar comer aquela sopa de agrião que as levava a experimentar o que não sabiam.

 

Tive uma experiência parecida com a da Maria João. Nunca aprendi realmente a cozinhar, mas vi confeccionar inúmeros pratos em casa da minha avó, uma cozinheira extraordinária. Também nunca quis saber muito. Até ao dia em que me vi em Atenas, um sítio onde, sacrilégio!, ninguém almoça. Por sorte ou precaução, tinha levado o livro de receitas da minha avó e as Receitas escolhidas de Maria de Lourdes Modesto. Precisava de comer a minha comida para sobreviver num sítio com hábitos gastronómicos interessantes, mas diferentes. Passei três anos a estudar grego e a cozinhar. Esta é a parte feliz da história. Obrigada, querida avó! Obrigada, Maria de Lourdes Modesto!

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 31-5-14.

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publicado às 20:31