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O desmaio presidencial

por Carla Hilário Quevedo, em 15.06.14
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O desmaio do Presidente da República durante o seu discurso nas comemorações do dia 10 de Junho provocou reacções variadas, a maioria esperadas. O contexto em que o Presidente desmaia é de tensão, com os manifestantes da CGTP a berrar ao fundo, por isso não me parece nada descabido associar os protestos ao desmaio. Várias pessoas apressaram-se a distinguir uma coisa da outra, na verdade como se vivêssemos numa espécie de bolha em que nada nos afecta, portanto estarem ali a gritar não teria problema nem traria consequências. Não seria tão rápida a tirar esta conclusão.

 

Sobre as causas do desmaio as televisões foram desenterrar um outro de Cavaco Silva, há 19 anos, numa situação aparentemente menos stressante do que a deste dez de Junho. Cavaco explicou depois que estava sob pressão por causa da morte de um familiar próximo. Não sei se dois desmaios no espaço de quase vinte anos nos permitem traçar um modo de reacção habitual ao stress. Sou, aliás, favorável a desmaios, na medida em que se pode sê-lo, porque obrigam as pessoas a parar. São interrupções físicas para estados de saturação ou ansiedade. Se tivermos em conta as coisas que se passaram nos últimos três anos em Portugal, desmaiar é mesmo o mínimo que pode acontecer a qualquer pessoa que tenha a noção do que se vive no País. Ninguém fica mal na fotografia por se sentir mal. É nas reacções ao sucedido que o caso se complica. E é a este respeito que gostaria de fazer algumas distinções.

 

Muitas pessoas reagiram mal a tentativas de piadas com o desmaio presidencial. Compreendo mas não as acompanho. A minha alma amoral nestes assuntos não prevê limites ao humor, mas é exigente nas piadas. Quanto mais delicado o assunto, também mais trabalho ou mais talento são requeridos. A profusão de piadas do género “desmaiou porque viu o corte nas pensões” faz-me pensar que ainda vivemos num país apegado à revista à portuguesa, o que pode explicar o sucesso de fenómenos como Marinho Pinto, e que o Parque Mayer podia estar cheio se quisessem. Estas piadas infantis são, no meu entender, oportunidades perdidas para ficar calado.

 

Talvez o que mais me choque na inexistência de boas piadas sobre o sucedido seja o excesso de politização nas graças. Pelo que me apercebi, poucos foram aqueles que, sobretudo no Facebook, prestaram atenção ao que é potencialmente divertido na cena, que é o olhar de Cavaco Silva para um lado e para o outro; um olhar, aliás, semelhante ao do desmaio de 1995. A única pessoa que captou bem a graça potencial do momento foi Manuel João Ramos. Outra questão, bem diferente, é o riso perante a fragilidade alheia. Podem chamar o que quiserem a esse riso, mas não lhe chamem humor. É outra coisa, e não me interessa.

 

Gostaria, por fim, de acrescentar que fiquei impressionada com a elegância do desmaio do Presidente. A última vez que desmaiei em casa de amigos, há anos, fui mais espalhafatosa e só acordei no dia seguinte. Parabéns e as melhoras.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 14/15-6-14.

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publicado às 20:55