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De joelhos

por Carla Hilário Quevedo, em 28.06.14
App PictureShow com filtro Vintage Stain

 

Diziam que era preciso “um milagre” para Portugal passar à próxima fase de jogos do Mundial. E como era preciso “um milagre”, o povo português “acreditou”, à excepção de alguns cépticos, que já viam Ronaldo e companhia de malinhas feitas, prontos a serem recambiados num avião de volta para casa. Não é que os cépticos tenham ganho alguma coisa, mas é preciso perceber que é da natureza dos milagres acontecerem mesmo muito raramente e em situações que não implicam meter bolas dentro de balizas. A selecção tinha de jogar mais e também precisava de sorte. Pelo que vi, como leiga e não amante da modalidade, mas entusiasta de competições europeias e mundiais, Portugal até correu, parece ter havido esforço de chegar à baliza do adversário e não saiu tão mal na fotografia. Mas, claro, o drama corre nas veias dos adeptos mais atentos e a desclassificação de Portugal tem culpados com nome.

 

Um dos responsáveis pode mesmo ser o capitão da selecção, Cristiano Ronaldo. O CR7 tem sido alvo de muitas atenções, nem sempre as melhores. A imprensa tablóide inglesa desde o ano passado que lhe chama Johnny Bravo, um nome que não é elogioso, mas que tem o mérito de se adequar ao Bola de Ouro português. Johnny Bravo é uma personagem de desenhos animados criada para a Cartoon Network em finais da década de noventa. Johnny Bravo tem um torso muito musculado e as pernas curtas, usa uma popa como penteado e não larga os óculos escuros. Está sempre a exibir os músculos fabricados no ginásio. É uma caricatura de um certo tipo de homem daquela época, muito devoto dos seus abdominais, ridículo na sua excessiva atenção ao corpo.  

 

Diego Torres, no El País, num artigo intitulado El drama de Johnny Bravo, explora as consequências da transformação de Cristiano Ronaldo, um rapaz magrinho e ágil que aos poucos se foi transformando num modelo de roupa interior masculina. À primeira vista, não parecia haver nada de mal nessa  transformação. Mas parece que não é assim. Os problemas de joelhos que Ronaldo tem vindo a sofrer podem ser a consequência, o preço a pagar, pela transformação física por que ansiou. O aumento de massa muscular no torso implica que as pernas e os joelhos têm de sustentar mais peso. No caso de Johnny Bravo, que não corre quilómetros em 90 minutos, não há mal nenhum. Mas, lá está, o desenho animado tem as perninhas curtas... No caso de Cristiano Ronaldo, o aumento muscular no torso pode ser o principal responsável pelas tendinoses dolorosas e malditas de que temos ouvido falar.

 

Se pensarmos noutros grandes jogadores de futebol, por exemplo, Lionel Messi, para não ir mais longe, verificamos que não são especialmente musculados. Não ficam tão bem na fotografia, não são material de capa da Vogue. São apenas jogadores de futebol, como Maradona, Pelé, Eusébio, Cruyff. Nenhum seria adequado para vender roupa interior, mas não era essa a sua principal função. Talvez Ronaldo queira ser tudo ao mesmo tempo, o que me parece normal num contexto de muito sucesso. Se é capaz de feitos extraordinários, porque não poderá ser capaz de conquistar ainda mais? Costuma ser neste ponto que os joelhos começam a ceder. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 28/29-6-14

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publicado às 18:55