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Bocados de pessoas

por Carla Hilário Quevedo, em 06.07.14
App CameraBag com filtro Helga sobre Homem à procura de pulgas na camisa, de Goya, 1824.

 

“Tem uma vida profissional tão bem sucedida e uma vida pessoal tão vazia”, “é muito racional, mas não sabe exprimir as suas emoções”, “tem tanto dinheiro e é tão infeliz” são algumas das expressões que costumamos ouvir sobre outras pessoas. As descrições oscilam entre os aspectos positivos para quem descreve – e para a maioria que ouve a história alheia – e aqueles tão negativos que estragam a história da que seria a pessoa perfeita, insuportavelmente irrepreensível, o exemplo de uma pessoa “completa” ou mais prosaicamente “que tem tudo”. Lamentavelmente, ou talvez nem por isso, nestas descrições há sempre uma adversativa ou uma falsa copulativa a lembrar que a pessoa, coitada, é uma desgraça, porque aquilo que lhe falta é o mais importante.

 

O alvo da descrição não é entretanto tido nem achado para a história que contam sobre ele. Não sabe, mas deixou de ter vontade própria. Ele não é o que sempre pensou que era; é, afinal, o resultado do que deviam ser as suas expectativas. São expectativas que não são definidas por ele, mas que deve cumprir para satisfazer um mundo exigente e ao mesmo tempo profundamente indiferente à sua existência. É um mundo que se quer alimentar do que é perfeito ao mesmo tempo que se convence de que a perfeição não é possível. Precisa de imagens de perfeição, porque são a única maneira que tem de imaginar uma unidade que o conforta, mas para o qual é insuportável a ideia de os outros “terem tudo”, mesmo “quando a vida não corre bem”, segundo os que entendem certos acontecimentos dramáticos como situações das quais “não é possível recuperar”. A recuperação ser possível causa outros problemas.

 

Há aqui dedos a mais espetados na mesma ferida, por isso recapitulemos: 1) os outros conhecem melhor aquele de que falam do que o próprio; 2) o alvo da descrição tem falhas na sua vida; 3) se não tivesse aquelas falhas, seria uma pessoa perfeita, mas é importante sublinhar que não é. Perante a actividade mais antiga do mundo, mesmo anterior à prostituição, a pergunta que me ocupa a cabeça é: quais as intenções de descrever os outros assim?

 

As respostas são variadas e podem estar relacionadas com pura e simples “falta de tema”. A falta de tema leva a falar dos outros e falar dos outros é uma actividade que consiste em escolher bocados, seleccionar partes, destacar umas e ignorar outras, tudo com um objectivo, que pode ir desta simples maledicência à biografia, mas em que existe uma ideia comum: a de que a pessoa descrita sabe menos sobre ela própria, tanto sobre a importância dos acontecimentos na sua vida como sobre a sua capacidade de viver bem com as “falhas” apontadas por outros. Está então criado um tema de conversa, mas qual será exactamente? Queremos falar de quê ou de quem quando falamos de outros, sobretudo quando falamos dos outros como se não fossem inteiros?

 

A actividade de falar do próximo é tão arriscada quanto insultuosa quando os visados estão vivos e de boa saúde até prova em contrário. As pessoas têm de estar mortas e há muito tempo para podermos falar de nós próprios em paz.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 5/6-7-14

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publicado às 19:17