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Cabeça de turco

por Carla Hilário Quevedo, em 03.08.14
App PictureShow com filtro Vivid

O mundo, na sua profunda sabedoria, não fazia a mínima ideia de quem era Bülent Arinç até o próprio aparecer há dias a dar instruções sobre como as mulheres se devem ou não comportar em público. A custo, pesquisei pelo nome e fiquei a saber que se trata do vice-primeiro ministro da Turquia. Uma pesquisa mais divertida no Google Images mostrou-me um homem de bigode que aparece com frequência nas fotografias de dedo espetado no ar.

 

Num discurso por ocasião do fim do Ramadão, o Eid al-Fitr, Arinç aproveitou para revelar os seus pensamentos acerca do que está mal no mundo, fazendo um diagnóstico duríssimo quanto à gargalhada feminina em público, aos mulherengos, e ao excesso de utilização do automóvel e do telemóvel. Mostrou, portanto, ser um daqueles homens a quem tudo faz imensa confusão, mas que depois aponta o dedo ao mundo, culpado, claro, pelo seu mal-estar. Arinç sublinhou a decadência moral no seu país, sobretudo da juventude turca, e chegou mesmo a perguntar, com saudade e uma lágrima não visível ao canto do olho, onde estavam afinal as jovens turcas que baixavam o olhar, que se comportavam com recato e protegiam a sua castidade, defendiam a sua honra, certamente dos tais mulherengos que andam por aí à caça de mulheres disponíveis que riem à gargalhada. Porque quem diz riso, diz sexo, e aí estará o incómodo do vice-primeiro ministro turco, muito aflito perante a mera ideia de uma mulher ser capaz de ter prazer. E pior, mostrá-lo em público.

 

Arinç não quer ser confrontado com esses assuntos incómodos e prefere o risinho discreto, hihihi, ou o sorriso esfíngico, que, atenção, não devemos subestimar, que o faz duvidar do que irá pela cabeça feminina, sempre misteriosa, eternamente maléfica, como se sabe desde antes de Juvenal, e sobretudo capaz das maiores atrocidades, como a História bem nos tem demonstrado. Se não fosse a gargalhada de Eva nas barbas de Adão, ah!, se Helena não se tivesse rido à gargalhada mesmo na cara de Páris, nenhuma desgraça no mundo teria acontecido. Seríamos uma espécie dócil e subserviente se as mulheres não se rissem e os homens não andassem atrás das mulheres. Já agora, segundo os mandamentos de Arinç, se as pessoas andassem mais a pé e se falassem menos ao telemóvel. Ainda não consegui perceber a relação entre isto tudo, mas imagino que a ideia de decadência do vice primeiro-ministro turco lhe apareça sob a forma de qualquer sinal exterior de entusiasmo ou de mera actividade quotidiana. Também não sou fã de excessos, como é o caso do número de mulheres vítimas de violência doméstica e violação ou de meninas forçadas ao casamento na Turquia. Mas para Bülent Arinç, estas não são questões morais que mereçam o seu tempo.

 

Entretanto, várias mulheres turcas reagiram às declarações de guerra de Arinç com milhares de fotografias espalhadas pelas redes sociais com risos rasgados. Foi muito bonito ver as mulheres a rir de quem não gosta delas. Arinç exigiu contenção, quando a virtude está na moderação, que não teve quando falou, mas que, apesar disso, recebeu na resposta adequada: uma resposta de paz.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 2/3-8-14.

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publicado às 19:11