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Selfie com todos

por Carla Hilário Quevedo, em 10.08.14

Liniers, no La Nación.

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publicado às 17:20

A culpa é do macaco

por Carla Hilário Quevedo, em 10.08.14
App PictureShow com filtro Retro

 

David Slater tira fotografias desde os catorze anos. Começou por fotografar o que estava próximo da cidade de Blackburn, no Lancashire, onde nasceu: a paisagem deslumbrante do Lake District, no noroeste de Inglaterra. Foi-se afastando para zonas cada vez mais longínquas e ganha a vida a fotografar quotidianos selvagens e desconhecidos para os habitantes das cidades.

 

Conhecemos o seu nome porque desde 2011 trava uma batalha difícil pelos direitos de autor de duas fotografias tiradas numa viagem à ilha de Sulawesi, na Indonésia. Slater passou algum tempo na floresta com uma espécie de macacos em vias de extinção. A dada altura um dos macacos tirou-lhe a máquina fotográfica das mãos e começou a brincar com elas. A brincadeira resultou em centenas de fotografias desenquadradas, tremidas e cortadas e em duas imagens fantásticas que são o motivo da disputa.  

 

A Wikipédia terá entretanto retirado as imagens do site de David Slater (http://www.djsphotography.co.uk) e publicado na página em que se descreve a espécie dos Macaca nigra. São duas imagens em que um macaco parece ter virado a máquina na sua direcção e disparado, como acontece agora quando a espécie humana se quer tontamente fotografar. Em 2011, quando tudo começou, ainda ninguém falava em selfies, mas agora não há jornal que não fale da “selfie do macaco”. A batalha pelos direitos de autoria das fotografias está num ponto que me parece ser delirante, embora o motivo seja óbvio: a Wikimedia Commons, onde estão alojadas as imagens da Wikipédia, não quer pagar direitos a Slater por estas fotografias. Como fazer? Argumentar que se foi o macaco que as tirou, então os direitos de autor lhe pertencem. Gostava de ver o que aconteceria na hora de o macaco reclamar em tribunal... A Wikipédia só está a dizer que as fotografias não são de ninguém, por isso não há nada a pagar.

 

Como defensora dos direitos dos animais gostava de perceber o que move aqueles que dizem estar “do lado do macaco” nesta questão. Será que acreditam que macacos “fazem selfies”? Se assim for, certamente defendem que o macaco tem um “self”, e, o mais estranho de tudo, que teve uma intenção quando carregou no botão. Conhecemos melhor hoje os animais e as suas capacidades, que nos surpreendem e encantam, mas não me parece saudável que se defenda que um macaco, ou uma doninha ou o meu gato “fazem selfies”. Há excelentes fotografias que são resultado do acaso de ter carregado no botão “sem pensar”, mas ao menos sabemos que estamos a tirá-las. Os defensores do macaco acreditam que sabia que era uma máquina fotográfica?

 

A introdução do termo “selfie” nesta discussão que se prolonga há três anos pode, no entanto, ser usada pela defesa de Slater. Se não for partilhada nas redes sociais, não é uma “selfie”. E se for partilhada, como aconteceu, então a imagem pertence ao proprietário da máquina. Além do mais, sem a viagem aos confins da Indonésia, sem um ambiente a favorecer um “roubo” da máquina e sem a liberdade dada pelo fotógrafo ao animal não humano para mexer nos botões, não haveria imagens. Neste caso, defendo o humano. Publico uma imagem em troca deste argumento, que pode utilizar livremente em tribunal. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 9/10-8-14

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publicado às 17:10