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Charles Manson e as mulheres

por Carla Hilário Quevedo, em 17.08.14
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Charles Manson, nascido no Ohio, baixinho e franzino, olhar esgazeado, fala da prisão de Corcoran, na Califórnia, de um novo interesse: o aquecimento global. A preocupação de Manson com o planeta atraiu uma rapariga chamada Star, de 25 anos, que apareceu há dias na televisão a dizer que é a sua mulher. O casamento ainda não foi oficializado, mas Star diz que está apaixonada.

 

A notícia é perturbadora mas não surpreende. Manson discorre sobre os homens e o planeta com a mesma arrogância iletrada e o mesmo ódio fútil com que nos anos 60 falava sobre a autoridade, a polícia, os negros, que pretendia aniquilar. Ignorante e orgulhoso do seu analfabetismo, Manson reuniu um grupo de seguidores. É possível que tenha desenvolvido uma capacidade de manipular imbecis na prisão, onde passou mais de metade da sua vida.  

 

Em 1967, antes dos homicídios que ficariam conhecidos por Tate-LaBianca, Manson saiu de novo da prisão e foi para Los Angeles. Um ano depois tinha uma “família”, da qual faziam parte várias raparigas parecidas com aquela que agora se apresenta como sua mulher. Star é o tipo de rapariga que convém a Manson. Tinha 16 anos quando lhe escreveu pela primeira vez. É franzina, pálida e alourada, como eram Patricia Krenwinkel, Susan Atkins, Leslie Van Houten e Linda Kasabian, parecidas sobretudo na capacidade de serem vítimas de Manson e carrascos de quem Manson ordenasse que fossem. Há 45 anos, a 8 de Agosto de 1969, talvez Star chegasse a entrar na casa de Terry Melcher, em Cielo Drive, ao contrário de Linda Kasabian, que ficou à porta por medo.

 

Terry Melcher era filho de Doris Day, e Manson, que tinha metido na cabeça que era músico, quis convencê-lo de que tinha talento para gravar um disco. Manson compusera um tema que consistia na repetição de duas palavras, “You know”, e tinha apresentado “a criação” a Gary Hinman, um músico de sucesso, que cometeu o erro de receber Manson e a sua trupe antes de o rejeitar. Foi assassinado, como teria sido Melcher, se não tivesse alugado a casa a um grupo de pessoas às quais Manson se referiu como “movie star types”.

 

Manson instruiu Charles ‘Tex’ Watson, de 23 anos, que se mudara para o Spahn Ranch que Manson tinha ocupado com a “família”, Krenwinkel e Atkins para “matarem com toda a brutalidade”. Cinco pessoas foram executadas, mortas a tiro e à facada, atadas com cordas e aterrorizadas. Susan Atkins esfaqueou Sharon Tate 16 vezes. Os assassinos escreveram “pig” na parede com o sangue. Dois dias depois, o mesmo grupo dirigiu-se à casa do casal LaBianca, escolhida ao acaso por Manson, que torturou e matou como quis.

 

Charles Manson e a “família” foram condenados à morte por gaseamento, mas a abolição da pena de morte na Califórnia transformou as condenações em penas de prisão perpétua. Ao longo dos anos, os pedidos de liberdade condicional têm sido recusados. Mas Manson tem vivido uma vida de razoável felicidade. Recebe 35 cartas de fãs por semana e há dez anos que tem uma namorada que acredita nele. Há razões para defender a pena de morte em certos casos. Uma é a seguinte: os seres humanos adaptam-se a tudo e até o mais brutal assassino pode encontrar uma paz qualquer e ser feliz na prisão. 

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 16/17-8-14

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publicado às 19:15