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O Não dos escoceses

por Carla Hilário Quevedo, em 21.09.14
Duas belas escocesas apoiantes do Sim. App Instagram sem filtro

 

“A Escócia rejeita esmagadoramente a independência” era o título do Telegraph que assim declarava a vitória do Não no referendo de 18 de Setembro que decidiria se a Escócia continuaria ou não a fazer parte do Reino Unido. A campanha pelo Não, liderada por Alistair Darling, um nome que lembra o Captain Darling de Blackadder (“Last person I called ‘darling’ was pregnant 30 seconds later” é uma frase que recordo desta extraordinária série de humor), venceu por uma margem de dez pontos: 55,3% contra os 44,7% do Sim.

 

O resultado exprime a derrota não apenas do Sim, cuja campanha foi liderada pelo ministro escocês Alex Salmond como também das sondagens, que não chegaram a conseguir reflectir o que muitos intuíam: que o Sim dificilmente conseguiria vencer, mas que o referendo seria um teste importante à participação dos eleitores sobre uma questão que está longe de ser nova.

 

Há mais de vinte anos que ouço falar sobre a independência da Escócia. Os cinco independentistas da minha família são persuasivos e sou emocionalmente influenciada pelos seus argumentos. Ouço-os ab imo pectore, de coração aberto. Ajuda, claro, que prefira em abstracto a independência à dependência, por muito que a autonomia custe, por muito que seja mais difícil ter liberdade de escolha do que deixar as decisões nas mãos de outros. E de que serve a isenção num tema que provou ser visceralmente emotivo? Até a Rainha Isabel II fez saber que estava “horrorizada” com a possibilidade de a Escócia deixar de fazer parte do Reino Unido. Penso que pela primeira vez assistimos à expressão pública de uma emoção tão forte por parte da realeza britânica, o que reforça a minha posição: o referendo sobre a independência da Escócia tem razões económicas mas é também um processo afectivo aproveitado pelos políticos.

 

David Cameron defendeu o Não com apelos a que a Escócia ficasse, “stay in the UK”, como um marido destroçado com a ideia da partida da mulher com quem foi casado durante 307 anos. Cameron repetiu que ficaria “de coração partido” e que seria “um divórcio doloroso” se o Sim ganhasse. Gordon Brown, dois dias depois da sondagem que dava uma vitória do Sim, garantiu um reforço de poderes à Escócia, incluindo taxas de juros mais favoráveis de apoio à economia e, na recta final, fez um apelo desesperado ao coração: “A Escócia não pertence aos políticos nem às campanhas; a Escócia pertence a todos nós”.

 

Um primeiro debate fraco de Alex Salmond, dúvidas sobre a moeda a adoptar e sobre a entrada da Escócia na União Europeia, sinais de perturbação nas bolsas e baixa da libra esterlina e a ameaça de bancos saírem da Escócia se o resultado fosse favorável ao Sim terão conseguido incutir o medo nos indecisos.

 

A independência traz incerteza. Ter medo da incerteza implica negar à partida o que de bom o futuro pode trazer. A preferência pelo que é familiar é tão natural quanto tantas vezes limitativa. Seja como for, parabéns à Escócia pela extraordinária força com que se bateu pelo que acredita, tanto de um lado como do outro. Todo o meu amor e respeito pela dignidade que nos mostrou.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 20/21-9-14

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publicado às 19:21

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 21.09.14

The Grand Budapest Hotel (Ralph Fiennes excelente, grande filme).

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publicado às 19:13