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Eu vou de

por Carla Hilário Quevedo, em 31.10.14

Halloween

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publicado às 19:23

Imunes a tudo

por Carla Hilário Quevedo, em 29.10.14

Dizem que em Inglaterra está a ficar na moda entre os socialites darem beijinhos no ar para evitarem o contacto. Claro que os beijinhos no ar se devem ao pânico do contágio do ébola. É sabido, contudo, que os anglo-saxões não são muito dados a beijinhos. Mas talvez por esta forma de cumprimentar ser tão histriónica, imagino que se tornará mais comum do que os verdadeiros beijinhos nas bochechas. O mundo latino, franceses incluídos, se também entrar em pânico, poderá vir a sofrer mudanças drásticas. O que será de nós se não pudermos tocar, beijar, fazer festinhas nos nossos amigos? Se o mundo se tornar ebolafóbico, também ficará ridículo. Vi num site uma imagem de uma mulher num aeroporto vestida com um fato isolante parecido com os que usam nos hospitais, mas feito com sacos de plástico. Começamos com beijinhos no ar e acabamos fechados nas nossas casas. O que nos vale é já termos sobrevivido às vacas loucas, à gripe da aves e à gripe A.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 24-10-14

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publicado às 17:58

Processo sexual

por Carla Hilário Quevedo, em 29.10.14

Pelo acórdão do Supremo Tribunal Administrativo, ficámos a saber que a actividade sexual não tem a mesma relevância com o avançar da idade. Esta afirmação ridícula foi a desculpa para reduzir uma indemnização mediana (175 mil euros) para uma má prática profissional cometida há quase 20 anos. Os juízes exibiram a sua estupidez para justificar a falta de respeito e empatia com a vítima. É, no entanto, surpreendente que os juízes tenham conhecimentos tão profundos sobre a sexualidade em geral e a feminina em particular. Sabemos que as decisões dos tribunais são incompreensíveis, tais como condenações leves ou ausência de condenação em casos de violência doméstica, por exemplo. Habituámo-nos a ouvir que uma decisão judicial tem bases rígidas no código que não são claras para todos. Tudo bem. Mas em que código está o tema da sexualidade depois dos 50? E onde está escrito que os juízes não devem ter vergonha de decidir 20 anos depois do sucedido?

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 24-10-14

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publicado às 17:52

Basta de conversa

por Carla Hilário Quevedo, em 26.10.14

Loja de Porcelana CHQ 25-10-14

 App CameraBag com filtro Fisheye

 

É sempre assim. Aparece um hábito novo e junta-se logo um grupo de centenas a criticar a novidade entretanto bem recebida pelos restantes milhões. A mudança traz suspeita, mas sobretudo gera melancolia de haver poucos a comportar-se daquela maneira antiga, que se perdeu, que saudades daquele tempo!, ouvimo-los a suspirar por escrito em artigos publicados na imprensa. O hábito novo é mau porque afasta as pessoas, ou como se diz agora, “as famílias”. Já ninguém se comporta como dantes, e isso só pode ser meio caminho andado para o desastre ou até para o fim da humanidade.

 

O hábito novo de que falo é o de não conversar com quem está ao nosso lado, porque há um smartphone ou um tablet que nos merece a nossa melhor atenção. Estamos de cabeça baixa a olhar para uma luz, com o dedinho às vezes a deslizar no ecrã, actualizando estados, tweetando, facebookando, elloando por aí; estamos noutra, não queremos falar com a pessoa que está ao lado, nem ela connosco. É uma escolha. Qual é o mal?

 

O mal, dizem os desconfiados do presente, tristes com o futuro e desencantados por o passado não interessar a ninguém, é não “conversarmos”, como se o acto de conversar fosse sempre um paraíso. Como se não houvesse uma história de séculos de asneiras ditas nas “conversas” que agora surgem glorificadas. Conversar para quê exactamente? Para nos chatearmos uns com os outros? Para termos um conflito insolúvel resultante daquela conversa que não nos apetecia nada ter mas que nos garantiram que nos ia fazer muito bem, porque, reparem, “conversar é sempre bom”? É? Independente da pessoa com quem, em princípio, seria agradável conversar? Aí está uma estranha novidade.

 

A realidade dos smartphones veio dar à humanidade um descanso que há muito merecia. Está tudo mais silencioso, e as guerras são por escrito, porque assim é que é bonito. Queres conversa? É bom que saibas escrever frases completas mas breves, porque senão ninguém quer saber de ti. Isto é um avanço na humanidade e não um retrocesso como tantos querem fazer crer. Agora reunimo-nos e estamos cada um a olhar para o seu ecrã, mas ao mesmo tempo temos a companhia dos nossos amigos. Eles estão ali mesmo à mão para podermos, de vez em quando, mostrar-lhes um vídeo, tão giro, da cabrinha a saltar com um rinoceronte, já viste? E rimo-nos ou, no limite, se porventura ousámos interromper o outro que assistia com interesse ao 452729.º vídeo de gatinhos, ouvimos um “hum” de desagrado de quem está a viver a sua vida. Tem algum mal? Alguém matou alguém?

 

No Bored Panda, um utilizador mostrou uma colecção de imagens da sua autoria com pessoas a olhar para os smartphones. No curto texto introdutório, falou, claro, da catástrofe que isto era, etc. São imagens de paz, até com algum interesse, de pessoas que parecem estar a reflectir. Tive a mesma sensação de há meses, quando vi fotografias deste grafito de Banksy. São dois namorados abraçados, cada um a olhar para o seu telefone. Haverá vida mais feliz do que esta? Uma vida em que é possível ter tudo, amor e tecnologia, paz e curiosidade, tudo ao mesmo tempo? Não se queixem tanto. Assim ninguém vai querer falar com vocês.  

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 25/26-10-14

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publicado às 19:39

Agora não dá

por Carla Hilário Quevedo, em 21.10.14

NY

David Sipress, The New Yorker

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publicado às 19:51

Prometo nunca me deixar

por Carla Hilário Quevedo, em 21.10.14

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Não é ficção nem maneira de dizer: Jennifer Hoes casou em 2003 com ela própria. Só agora, tantos anos depois, tive conhecimento desta cerimónia curiosa através de um breve documentário no site da Aeon Magazine. Jennifer casou de vestido de noiva, declarou que iria ficar com ela para sempre e só lhe faltou cantar “I married myself, I’m very happy together”, dos Sparks. A oficialização de amor próprio foi pública, claro, com convidados a desejar-lhe felicidades com ela mesma. Primeiro pensei que o acto de Jennifer era de rejeição aos homens mas parece que entretanto se apaixonou por outra pessoa. Estaremos perante um caso de adultério? E se quiser casar com esse rapaz? Jennifer deixou explícitas as condições para o divórcio num contrato que assinou mas que não pôde registar. Imagino a dor de alguém ter de se separar de si próprio. Não estou certa do que Jennifer quis com este auto-casamento, mas pelas fotografias era capaz de lhe chamar arte.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 17-10-14

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publicado às 19:46

Gorda és tu

por Carla Hilário Quevedo, em 20.10.14

CHQ123.JPG

App PictureShow com filtro Quad e ruído TV Screen

 

Se a vida te dá uma polémica inflamada numa rede social, faz limonada. No caso de Jessica Athayde, que desfilou na Moda Lisboa em biquíni na qualidade de celebridade ou actriz e não modelo, os ânimos começaram a ficar exaltados a partir da publicação de uma foto do desfile numa página qualquer de Facebook, ou blogue associado, com um comentário desagradável. O post terá sido apagado, mas testemunhas do sucedido declararam-se indignadas com o palavreado escolhido para descrever uma rapariga sorridente em biquíni; qualquer coisa com “hidratos de carbono a mais”.

 

Não li mas pelo tom dos posts seguintes percebi que mais do que chamar “gorda”, o adjectivo mais temido pelas mulheres, as críticas de Jessica apontaram o pormenor de a actriz não estar na forma devida para estar na passarela. Duas breves considerações a este respeito. Primeiro, as críticas não são modelos, por isso vêem Jessica como a possibilidade de cada uma delas estar ali a desfilar; há uma comparação e por isso um clássico e invejoso, admito que inconsciente, “porquê ela e não eu?”. Em segundo lugar, Jessica tem um corpo normal e não de modelo e por isso não devia estar num sítio onde não pertence. Onde é que já ouvimos isto? São séculos a ouvir homens e mulheres a dizer qual é o local indicado para as mulheres. Só não disseram que a rapariga devia estar na cozinha, mas a ideia de inadequação é a mesma.

 

Talvez o mais inesperado aqui seja o facto de serem mulheres a criticar a forma física de Jessica Athayde. Inesperado somente para quem está desatento. Na primeira fila de inimigos das mulheres estão outras mulheres sob várias formas, como mães, sogras ou cunhadas. Outras mulheres também são de desconfiar. Tudo isto acontece por uma questão de biologia, passo a interpretação attenboroughiana dos géneros. As mulheres competem umas com as outras e essa competição, por vezes bastante cruel, é aproveitada e até fomentada pelo sexo oposto. São séculos de opressão em que as mulheres colaboram.

 

Os homens, por seu lado, ou gostam de mulheres ou não gostam. E gostar de mulheres não significa dizer: “Ó Jessica, não ligues que tu és muita boa!”. Não, isto é só uma tentativa de aproveitamento de uma guerra que não lhes pertence, aproveitando a fragilidade da vítima, confortada com vários “és um avião”, e das solidárias com a vítima. É, diria, assim permitida a interferência daqueles a quem na verdade as críticas da Jessica anseiam por agradar: os homens. Ao lançar a hipótese da gordura athaydiana, as críticas pretendem sondar o mercado masculino e perceber se afinal o desejo deles se coaduna com o desejo delas. Minhas senhoras, lamento informar, mas parece que não.

 

Para terminar, diria que tocámos num ponto sensível que tem estado presente nas nossas vidas desde o início dos tempos. As mulheres querem ser amadas sem serem julgadas pelo seu aspecto físico, sobretudo se for para dizer mal. Mas quando há mulheres a apontar defeitos de aparência, o alarme soa. É nessa altura que os homens devem ficar em silêncio. E é também nessa altura que a visada pode responder com a elegância da brevidade: “gorda és tu”.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 18/19-10-14

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publicado às 18:59

Blockbomba

por Carla Hilário Quevedo, em 19.10.14

Fading Gigolo (adorei).

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publicado às 19:06

Dos Modernos

por Carla Hilário Quevedo, em 17.10.14

Martensen, 2001

Peter Martensen, The Flight, 2001

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publicado às 17:41

Poesia heterossexual

por Carla Hilário Quevedo, em 16.10.14

Ode to Spring

Frederick Seidel, 1936

 

I can only find words for.

And sometimes I can’t.

Here are these flowers that stand for.

I stand here on the sidewalk.

 

I can’t stand it, but yes of course I understand it.

Everything has to have meaning.

Things have to stand for something.

I can’t take the time. Even skin-deep is too deep.

 

I say to the flower stand man:

Beautiful flowers at your flower stand, man.

I’ll take a dozen of the lilies.

I’m standing as it were on my knees

 

Before a little man up on a raised

Runway altar where his flowers are arrayed

Along the outside of the shop.

I take my flames and pay inside.

 

I go off and have sexual intercourse.

The woman is the woman I love.

The room displays thirteen lilies.

I stand on the surface.

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publicado às 19:17

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