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Mostrar tudo

por Carla Hilário Quevedo, em 05.10.14

Loja de Porcelana CHQ 4-10-14

App Photofy com filtro Tokyo e moldura com cor sobre imagem do nascimento de Júlio César, British Library, 1473-76.

 

Lembro-me de crescer a ver fotografias de corpos que pareciam mutilados. Não estavam, claro. As imagens eram parte da investigação médica do meu pai, das cirurgias complicadas que fazia. Consistiam na sua maioria em reconstruções de sistemas cardiovasculares entupidos ou a funcionar mal. Nos meus pesadelos ainda aparece um conjunto de fotografias de um par de mãos, imagens a preto e branco, que até hoje me lembram uma frase repetida ao almoço: “Agora não, pai...”. Só podia ser um teste à nossa curiosidade e resistência, minha e do meu irmão mais velho, os dois de cara virada e olhos fechados. Seria uma forma de o meu pai nos mostrar o que o move e anima a sua vida: a medicina.

 

As memórias apareceram por causa da estreia de uma série de televisão chamada The Knick, produzia pela HBO. Nunca mais tivemos um supermédico como o Dr. Gregory House (Hugh Laurie), mas a diferença mais visível entre House e The Knick é a ausência de imagens chocantes na primeira e a profusão de sangue e vísceras na segunda. Quando falei de House ao meu pai, disse-me para não acreditar naquilo, que era impossível e tudo um disparate. Sei que fez um esforço para ver porque nunca se interessou por ficção. Mas fiquei descansada por a punção lombar não ser um método de diagnóstico habitual. O Dr. John W. Thackeray (Clive Owen), o cirurgião principal do hospital Knickerbocker em Nova Iorque, é um viciado (como Gregory House era num analgésico chamado Vicodin) em cocaína, usada em vários tratamentos em inícios do século XX, a época em que se desenrola a história de The Knick.

 

Em cerca de um século, são inúmeras as mudanças e a melhoria na medicina, sobretudo no bloco operatório, uma espécie de anfiteatro, com estudantes de medicina a assistir às intervenções que eram explicadas passo a passo. Se por um lado, ainda há muito a descobrir na medicina e a melhorar, é certo que em pouco tempo houve uma revolução nos procedimentos básicos, que permitiram salvar milhões de vidas. The Knick é interessante desse ponto de vista, mas também nos oferece uma imagem extremamente realista das operações.

 

No primeiro episódio, uma mulher grávida é levada para o bloco operatório para testar um procedimento novo de fazer nascer o bebé que se encontrava virado ao contrário. O método que conhecemos hoje por cesariana existe muito antes do nascimento de Júlio César, com o qual o nome “cesariana” (ou “cortado do ventre”) se confunde. Numa lenda, César nasceu por cesariana; noutra história, César é só nome de família. Na verdade, a mãe de César, Aurélia Cotta conheceu a neta (Júlia, sim, morreria no parto), o que nos deve fazer suspeitar de César ter nascido de parto normal. Nenhuma mulher sobrevivia a uma cesariana. Por fim, a existência da antiga Lex Caesarea de Numa Pompílio (ca. 715-673 a.C.), que proibia mulheres mortas de serem ser enterradas grávidas, deve levar-nos a separar a “cesariana” de “César” de vez.

 

Voltando ao século XX e a The Knick, a cena é horrivelmente explícita, como todas as que envolvem cirurgias. É esta a originalidade da série: a de mostrar tudo. Como se imagina, quando essas cenas começam, não estou na sala a ver.    

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 4/5-10-14

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publicado às 18:53