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Vírus chato

por Carla Hilário Quevedo, em 12.10.14

Loja de Porcelana CHQ 11-10-14

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A febre hemorrágica ébola não é uma doença nova. Apareceu pela primeira vez em 1976 numa aldeia no Zaire e cerca de 300 casos foram diagnosticados no local a partir do paciente denominado zero, uma freira belga que se julgava padecer de febre amarela, e que terá sido a primeira baixa. Ninguém sabe até hoje como se deu aquele primeiro contágio, mas o local está definido: ao largo do rio Ebola, que deu o nome ao vírus. Desde então que houve vários surtos de ébola, todos terríveis, avassaladores, mas controlados e circunscritos. Dir-se-ia que se tratava de um problema de certas zonas muito pobres em países de terceiro mundo, um pouco como a sida, que de início se pensava estar restrita, embora a dois grupos de pessoas: homossexuais e toxicodependentes.

 

Como aconteceu com outras epidemias, o mundo recebeu as notícias pela televisão, ficou aterrado e não ligou nenhuma. Foram décadas de medo misturado com indiferença. Os surtos de ébola, como é da natureza do surto, aparecia do nada, matava uns quantos na África central e desaparecia não se sabia como. Até há meses, altura em que equipas internacionais acorreram à Nigéria para tentar conter o vírus, a doença acontecia lá longe e aos outros. Mesmo assim, os investigadores tentaram descobrir mais sobre uma doença que se pensa existir sobretudo em zonas florestais em que existem morcegos portadores do vírus e em que as tribos têm rituais fúnebres que obrigam os familiares a tocar no corpo. Uma das características mais terríveis do ébola é ser transmissível por saliva ou suor. Não se transmite pelo ar, como chegou em tempos a ser divulgado, mas neste aspecto chega a ser mais assustador do que o vírus HIV. A doença desenvolver-se-á mais em países em que tocarmos uns nos outros é uma actividade quotidiana? A gripe A, apesar de tudo menos aterradora por lhe faltar o aspecto cinematográfico da febre hemorrágica externa, teve mais incidência em países do sul ou do norte da Europa?

 

Até há semanas, o ébola só existia em países em guerra, com pobreza extrema e uma rede de cuidados hospitalares deficitária. Até os médicos, enfermeiras e auxiliares destacados na Nigéria, no Senegal e na Libéria começarem a ficar infectados com o vírus e serem transportados para os seus países de origem para tratamento. O tratamento, entretanto, pode estar baseado no plasma do sangue de pessoas que recuperaram da doença. Por enquanto, não há vacina.

 

Mas ficámos com a certeza de que pouco se sabe sobre a doença por causa do caso da auxiliar de enfermagem espanhola Teresa Romero, que se encontra internada no hospital Carlos III, em Madrid, em estado grave. A funcionária terá contraído a doença por não ter estado devidamente protegida a tratar de dois missionários espanhóis repatriados da Serra Leoa e da Libéria, onde tinham contraído o vírus e que acabaram por falecer. O cão de Teresa Romero foi abatido como medida de precaução, uma vez que ninguém sabe se o animal poderia ser portador. Estão assim reunidas as condições para termos mais uma vaga de pânico como aconteceu com a gripe A. Temos fatos, viseiras, galochas e luvas de borracha que cheguem para todos ou é preciso fechar as fronteiras?

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 11/12-10-14

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publicado às 19:24