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Gorda és tu

por Carla Hilário Quevedo, em 20.10.14

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Se a vida te dá uma polémica inflamada numa rede social, faz limonada. No caso de Jessica Athayde, que desfilou na Moda Lisboa em biquíni na qualidade de celebridade ou actriz e não modelo, os ânimos começaram a ficar exaltados a partir da publicação de uma foto do desfile numa página qualquer de Facebook, ou blogue associado, com um comentário desagradável. O post terá sido apagado, mas testemunhas do sucedido declararam-se indignadas com o palavreado escolhido para descrever uma rapariga sorridente em biquíni; qualquer coisa com “hidratos de carbono a mais”.

 

Não li mas pelo tom dos posts seguintes percebi que mais do que chamar “gorda”, o adjectivo mais temido pelas mulheres, as críticas de Jessica apontaram o pormenor de a actriz não estar na forma devida para estar na passarela. Duas breves considerações a este respeito. Primeiro, as críticas não são modelos, por isso vêem Jessica como a possibilidade de cada uma delas estar ali a desfilar; há uma comparação e por isso um clássico e invejoso, admito que inconsciente, “porquê ela e não eu?”. Em segundo lugar, Jessica tem um corpo normal e não de modelo e por isso não devia estar num sítio onde não pertence. Onde é que já ouvimos isto? São séculos a ouvir homens e mulheres a dizer qual é o local indicado para as mulheres. Só não disseram que a rapariga devia estar na cozinha, mas a ideia de inadequação é a mesma.

 

Talvez o mais inesperado aqui seja o facto de serem mulheres a criticar a forma física de Jessica Athayde. Inesperado somente para quem está desatento. Na primeira fila de inimigos das mulheres estão outras mulheres sob várias formas, como mães, sogras ou cunhadas. Outras mulheres também são de desconfiar. Tudo isto acontece por uma questão de biologia, passo a interpretação attenboroughiana dos géneros. As mulheres competem umas com as outras e essa competição, por vezes bastante cruel, é aproveitada e até fomentada pelo sexo oposto. São séculos de opressão em que as mulheres colaboram.

 

Os homens, por seu lado, ou gostam de mulheres ou não gostam. E gostar de mulheres não significa dizer: “Ó Jessica, não ligues que tu és muita boa!”. Não, isto é só uma tentativa de aproveitamento de uma guerra que não lhes pertence, aproveitando a fragilidade da vítima, confortada com vários “és um avião”, e das solidárias com a vítima. É, diria, assim permitida a interferência daqueles a quem na verdade as críticas da Jessica anseiam por agradar: os homens. Ao lançar a hipótese da gordura athaydiana, as críticas pretendem sondar o mercado masculino e perceber se afinal o desejo deles se coaduna com o desejo delas. Minhas senhoras, lamento informar, mas parece que não.

 

Para terminar, diria que tocámos num ponto sensível que tem estado presente nas nossas vidas desde o início dos tempos. As mulheres querem ser amadas sem serem julgadas pelo seu aspecto físico, sobretudo se for para dizer mal. Mas quando há mulheres a apontar defeitos de aparência, o alarme soa. É nessa altura que os homens devem ficar em silêncio. E é também nessa altura que a visada pode responder com a elegância da brevidade: “gorda és tu”.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 18/19-10-14

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publicado às 18:59