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Aprender a ler e a escrever

por Carla Hilário Quevedo, em 10.11.14

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É difícil perceber o que leva uma pessoa a aprender uma língua ou a tratar bem os outros. “Teve bons professores” ou “bons pais” não é explicação suficiente. Há casos em que as pessoas aprendem apesar dos professores negligentes que tiveram. (E por aprendizagem entendo o processo misterioso pelo qual as pessoas passam a falar inglês e a tratar bem os outros.) Outras não percebem o valor de um bom professor, não reconhecem o que têm à frente, por isso não são capazes de perceber o que tem para dar. Esta falta de condições (vamos chamar-lhe) anímica da parte de alunos em particular e pessoas em geral é associada à falta de condições materiais, à pobreza, à carência, etc., e por vezes acertadamente, mas a realidade é mais complexa e imprevisível.

 

Há tempos dei um curso de alfabetização a um grupo de imigrantes em Portugal. O curso teve lugar na associação Renovar a Mouraria e na primeira aula contou com 14 alunos, o que me assustou. Na segunda apareceram vinte alunos, o que me fez perder o sono. Era muita gente para os meus planos especiais de trabalho intenso com cada uma daquelas pessoas, todas diferentes, com vidas diferentes, a precisar de atenção especial. Em comum tinham a urgência de saber ler e escrever português para poderem trabalhar no nosso país, para lerem cartas e pagarem contas, para não serem enganados.

 

A maioria era oriunda da Guiné Bissau e da Guiné Conacri. Do grupo faziam parte apenas duas mulheres, uma senhora de Marrocos casada com português, viúva recente, que falava correctamente a língua mas que nunca tinha aprendido a ler e a escrever, e uma senhora portuguesa de sessenta anos cuja mãe se recusara a mandá-la à escola. Muitos alunos nunca tinham tido a experiência de estarem sentados a uma secretária com um caderno à frente, a olhar para uma pessoa de pé que lhes falava e os interpelava. Alguns não sabiam sequer como usar um caderno, por que lado deveriam começar a escrever, etc. Atender telefonemas na aula, falar alto, discutir com outros alunos, tudo isto existiu sem a mínima intervenção da minha parte. Nunca pensei que seria uma espécie de buda numa situação destas, mas fui. Não eram crianças e não estava disponível para os tratar como tal. À medida que o tempo foi passando, estes comportamentos foram desaparecendo porque foram reprimidos por outros alunos. Não ter dito nada acabou por ser eficaz.

 

Nenhuma destas pessoas tinha uma vida fácil, nenhuma tinha crescido num ambiente confortável, mas todos aproveitavam a aula para aprender o que podiam e para escapar à dureza da realidade. Além do mais, tinham sentido de humor. Sempre que era preciso dar exemplos, como reconhecer a letra “a” em palavras, alguém dizia entre risos “arma”, “droga” ou “polícia”. Sou capaz de ter sorrido, o que fez com que repetissem a brincadeira.

 

O curso terminou com poucos alunos. Uns arranjaram trabalho, outros voltaram para os seus países de origem. O absentismo é um dos maiores problemas dos cursos de alfabetização e é difícil de combater. Dos cinco alunos que restaram, só uma aluna aprendeu realmente a ler e a escrever. Apesar da frustração, condição natural ao ensino, sou grata por ter assistido a esse momento maravilhoso.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 1/2-11-14

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publicado às 19:03

Depois do sinal

por Carla Hilário Quevedo, em 10.11.14

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publicado às 19:01