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58 doninhas numa gabardina

por Carla Hilário Quevedo, em 16.11.14

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publicado às 20:08

A tua foto como avatar

por Carla Hilário Quevedo, em 16.11.14

Namorada do Neinzinho

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publicado às 19:58

Em segredo

por Carla Hilário Quevedo, em 16.11.14

Loja de Porcelana CHQ 15-11-14

App PictureShow com filtro Retro e moldura 120 Reversal sobre Rapariga a ler uma carta perto da janela aberta, de Johannes Vermeer, 1657-59.

 

“Nunca se chegou a saber quem era, mas tu sempre soubeste. Porque é que não disseste?”, perguntou ele. “Porque o segredo não é meu. Soube, sei, mas isso não me dá o direito de contar”, respondeu ela, calando-o.

 

Nisto dos segredos, há pessoas de confiança e outras que não são. Mas nesse grupo restrito de “pessoas de confiança”, há estilos diferentes de guardar o que se sabe que deve ser guardado e de contar o que não pode ser mantido em silêncio. Se alguém prejudica propositadamente outra pessoa, e temos conhecimento disso em segredo, não será nosso dever contar? É uma maneira de condenar o que é condenável e que passaria impune se fossem cumprido aquele pedido impossível de guardar segredo.

 

Há tempos li que as pessoas que se preocupam com a justiça são desagradáveis. É desagradável tomar decisões quando se trata de dizer o que se soube em segredo. Mas quando será justo e correcto guardar as injustiças só para si? Não é melhor expô-las na praça pública? Quando alguém conta um segredo a outra pessoa, não espera que o outro tenha problemas em guardá-lo. Pressupõe-se que o faz num contexto de confiança e não prevê que haja dúvidas de quem ouve sobre se deverá ou não contar o que acabou de ouvir. Por outro lado, será justo esperar que a outra pessoa decida da maneira esperada? Fazemos bem em sobrecarregar os outros com os nossos pequenos mistérios? Fazemos bem em contar seja o que for que não possa ser público? Mas se tudo for público, como estabelecemos relações de confiança e amizade? Sem a partilha de informações exclusivas, não saberíamos quem está do nosso lado e quem não está; quem fala, quem mente, quem nos defende ou engana.

 

Talvez os segredos se dividam entre os que contamos aos outros e aqueles que não contamos a ninguém. Mas estaremos perante um segredo se não o contarmos a ninguém? Se assim for, então mesmo aquele que conta tudo sobre os outros estará cheio de segredos inconfessados sobre ele próprio. Ou conta tudo, tudo até ficar sem nada para si. Ou então transforma o que conta em possibilidades de uma vida: é um romancista ou uma escritora, na medida em que usa o que sabe como uma possibilidade do que poderá ser ou existir. Ninguém pode levar a mal.

 

Há duas ideias atraentes sobre segredos. Uma diz que somos todos segredos, uns para os outros, na medida em que somos misteriosos até para nós mesmos. É uma ideia simpática, mas talvez um pouco ingénua. Não são muitas as pessoas que têm a coragem de se conhecer, mas existem.

 

A outra ideia, que pode acrescentar obscuridade ao tema, é a de podermos viver um segredo como se não fosse um segredo. Quase como cometer um crime à vista de todos e sem ser visto ou fazer a doação mais generosa do mundo no anonimato estando presente na sala. Ter a satisfação de só nós sabermos o que fazemos, sem termos a intervenção, nem a opinião nem os olhos de ninguém, é o que move a ideia de “crime perfeito”. Como se houvesse quem vivesse sem um dia ser apanhado: “Aha, afinal és um forreta”. É uma mentira de controlo total do que se pensa e do que se é. Só existe na literatura.

 

Publicado na edição de fim-de-semana do i, 15/16-11-14

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publicado às 19:55

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 16.11.14

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Keira Knightley*

 

... no seu artigo no Público, José Pacheco Pereira exprimiu uma angústia que não lhe parece frívola, mesmo para um intelectual elitista: a de não ler "livros novos". Segundo diz: "Já uma vez coloquei essa pergunta de modo biográfico, dizendo que, por regra, não lia nada que não tivesse aguentado dez, quinze anos, de “necessidade de leitura”. Não sei se percebo muito bem, mas imagino que JPP não lê livros que tenham menos de 15 anos (ou então não lê livros em que não ande a pensar há dez, quinze anos, não sei). Um livro com 15 anos não é novo? Persiste a angústia de mesmo assim estar a perder muita coisa. A angústia justifica-se porque está, e sabe-o. Cita os exemplos de Coetzee ou Roth (visto à distância, concluí que dei por perdido o tempo que passei a ler The Dying Animal) para mostrar que a grande literatura ainda existe. Li há dias Os Dias do Abandono, de Elena Ferrante (2002), e posso garantir que poucas coisas "antigas" me entusiasmaram tanto. Aliás, se pudesse voltar atrás, nunca teria perdido o meu precioso tempo a ler Ovídio, que é um chato desinteressante. Preferia ter lido o Freud todo. Ou até todo o Adam Phillips (lerei o que me falta a seu tempo). Penso também que Pacheco Pereira está a ler ficção com a expectativa de aprender alguma coisa, o que me preocupa. Somos finitos, o nosso tempo é finito, como bem diz, por isso o melhor a fazer é "deixar fluir". Abrace os novos. Há vários que batem os velhos aos pontos. Quando os livros são maus, não é por serem novos. É mesmo por serem maus. 

 

* Imagem de um filme baseado num romance de Jane Austen, uma autora com a qual também preferia ter passado menos tempo.

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publicado às 10:35