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Uma mulher

por Carla Hilário Quevedo, em 08.12.14

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“Escrever com verdade é falar das profundezas do ventre materno”, pensa Olga, a protagonista de Os Dias do Abandono de Elena Ferrante. Olga, de 38 anos, foi abandonada pelo marido, Mario, por uma rapariga de 22 anos chamada Carla (é um nome que se presta). Os meses que se seguem ao abandono são descritos com a verdade a que Olga se refere num instante em que tenta recuperar a concentração perdida. “Eliminar o supérfluo. Circunscrever o tema” são mais regras da boa escrita, da escrita autêntica, que é física e que por isso mesmo é dolorosa como dar à luz. Equiparar as dores de escrita às de parto não é novo, mas escrever com a mesma dor física não é comum.

 

Ninguém sabe quem é Elena Ferrante. A autora não dá entrevistas, há apenas uma fotografia que dizem ser dela, uma mulher de cigarro na mão com cerca de 60 anos, mas não há certezas. Num meio que imagino ser pequeno de escritores italianos, Elena Ferrante é uma espécie de fantasma, o que suscitou várias discussões a respeito da sua identidade. Será um homem, o escritor Domenico Starnone, nascido em Nápoles, local de nascimento de Ferrante? Serão Starnone e a mulher? As perguntas ainda estão por responder. Pela leitura de Os Dias do Abandono, diria que Elena Ferrante é uma mulher, a escrever com a sinceridade bruta, num estilo compulsivo e violento, com que só uma mulher pode escrever. Pode ser uma consequência de um género que está pouco habituado ao poder, que não tem muito a perder e que é intransigente no compromisso. Mas extrapolo.

 

A identidade da autora de Os Dias do Abandono (entre várias outras obras que não menciono porque ainda não li) interessa por motivos comerciais, mas para o leitor não é essencial saber de quem se trata. O romance é escrito na primeira pessoa, com o tom brutalmente sincero de qualquer autobiografia, com a diferença de não precisar de mentir porque é uma obra de ficção. A confusão é perturbadora porque Olga é real. A sua vida deixou de funcionar como o telefone que tem um ruído esquisito, a fechadura que não consegue abrir com nenhuma chave, o filho que está doente e vomita, o cão que foi envenenado. Olga abandonada deixou de ser útil, deixou de ter vida, deixou de ser uma mulher. É um corpo amputado e em desleixo que se arrasta pela casa, incapaz de responder às solicitações da filha, que lhe tira a maquilhagem, rouba um vestido, trata do irmão e toma o lugar da mãe. Olga não sabe “onde está, o que está a fazer, porquê”, como a heroína abandonada de Tolstói e diz à filha que estar distraído é não sentir nada.

 

Os Dias dos Abandono é um relato da devastação vivida por uma mulher que percebe que o marido continuará a viver sem ela e os filhos. Mario não tem “necessidade” deles, um corte que Olga também sente pelos filhos, dos quais a dada altura também diz “não precisar”. Num estilo implacável e árido, a mãe rejeita “as suas criaturas”, uma verdade pouco dita. A expulsão aqui é outra.

 

Dizer que os Os Dias do Abandono de Elena Ferrante é um grande livro é só a versão resumida da verdade.

 

Loja de Porcelana, 8-12-14. A partir de hoje escrevo no i à segunda-feira. 

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por Carla Hilário Quevedo, em 08.12.14

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