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Anotar para esquecer

por Carla Hilário Quevedo, em 22.12.14

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É raro emprestar livros, mas as minhas razões para me recusar a fazê-lo sem nunca dizer que não mas educadamente mudando de assunto têm mais que ver com o que está escrito nas margens, nos sublinhados e comentários a passagens do que com a possibilidade de nunca mais voltar a ver o livro que emprestei. Indo directamente ao que interessa, o que capta a nossa atenção, o que nos parece relevante, ou pelo contrário o que detestamos, em suma a nossa vida, está em anotações que estão longe de ser inocentes. Alguém com um gosto mais português do que o meu para falar sobre estes assuntos poderia insinuar que o leitor que escreve nos livros está a tentar “dialogar com o texto”. Felizmente, nenhum leitor sério acredita em superstições destas.

 

Uma leitura de lápis na mão – se não tiver lápis, com caneta – não pressupõe um desejo pouco saudável de “conversar” com o que não responde. A leitura anotada é mais parecida com um monólogo, se quisermos ser simpáticos (há sempre quem queira), ou com a escrita de um diário, com a diferença de nos revelarmos em margens e sublinhados, na companhia de um texto já escrito. Uma biografia interessante seria aquela que resultaria da leitura das anotações dos autores nos livros que liam, uma espécie de entrada directa dos biógrafos na vida autêntica dos autores. Como se as anotações fossem a oportunidade para ser sincero sem esperar nenhum juízo, esse sim tão próprio de qualquer conversa. O juízo seria feito pelos leitores das anotações, por biógrafos ávidos de conhecimento sobre autores que lêem, confrontados com fragmentos de verdade que teriam por sua vez de compor. “Ah, isto interessava-lhe...”, diriam perplexos perante um sublinhado ou vários pontos de exclamação.

 

Penso que fica claro por que razão não empresto livros. Não quero que ninguém me conheça assim tão bem, que tenha um acesso directo ao meu coração ou, mais aterrador, à minha cabeça. Não me quero saber vulnerável às mãos de outros leitores, que assim se vêem confrontados com a minha intimidade, quando até só queriam ler um livro em paz, sem me ter ali constantemente ao lado a comentar, a explicar, a confrontar com outras leituras. Também não empresto livros porque não quero incomodar alguém que só queria ler a Hedda Gabler em paz e que não conseguiu porque passou o tempo a decifrar gatafunhos. Estou satisfeita com estas duas razões de peso.

 

Tim Parks, no NYRB, defendeu a leitura anotada nos livros em papel (é difícil e frustrante fazer notas no Kindle ou no iPad, a meu ver o único inconveniente na utilização destes aparelhos de resto perfeitos para ler) e acrescenta uma razão que dá força à ideia de estarmos perante comentários sobre a nossa vida, as nossas expectativas, aquilo que amamos e rejeitamos, mais do que observações a uma leitura. Em releituras tardias, quando voltamos a livros anotados por nós, é difícil reconhecermos os nossos comentários, ou a nossa vida passada. É difícil porque mudámos de ideias. A nossa interpretação mudou porque entretanto vivemos e reparamos noutras coisas. Temos outra vida.

 

A solução passa por anotar por cima. Ou apagar e dizer mais.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 19:56