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Mulheres ao poder

por Carla Hilário Quevedo, em 27.01.15

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Na semana passada, vi no SOL uma fotografia interessante da Ministra da Administração Interna, na secção Cocktail. Nela, Anabela Rodrigues passava revista a uma formação de bombeiros em Torres Vedras. A imagem mostrava o seu perfil elegante, cabelo liso e mãos delicadas, de aspecto frágil e feminino, apesar da postura firme e concentrada. Olhei para a imagem com um estranho orgulho. É bom ver mulheres a assumir cargos tradicionalmente masculinos. Dá a ideia de que tudo mudou, o que pode bastar para o início real de uma mudança. Às vezes só é preciso gostar de ver para querermos continuar a ver. Neste caso, mulheres na liderança. Anabela Rodrigues tem quanto a mim uma vantagem: sorri pouco. É séria ou não quer agradar? Qualquer das hipóteses é bem-vinda e representa um corte com preconceitos a respeito de mulheres em cargos de poder. Ainda é cedo para sabermos se gosta da política como Maria Luís Albuquerque, mas a sua chegada é bem-vinda.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 23-1-15

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publicado às 19:34

Cartoon na contracapa

por Carla Hilário Quevedo, em 27.01.15

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Só recebi a edição do Charlie Hebdo depois de escrever este texto.

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publicado às 19:31

Ridículos e perigosos

por Carla Hilário Quevedo, em 27.01.15

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O escritor Paul Berman declarou que a capa do Charlie «foi o maior acontecimento jornalístico desde o 'J'acuse' de Zola. E o mais corajoso. Zola arriscava a prisão, a perseguição, mas não a morte». Berman  afirma que o desenho é «genial» e que a legenda «está tudo perdoado» é intrigante. Quem perdoa quem? O que se perdoa? As subtilezas não interessam num mundo em que os protestos violentos se repetem. É a mesma violência contra as caricaturas publicadas na Dinamarca. Muita boa gente acha no entanto normal que milhares de muçulmanos se sintam ofendidos. A desproporção entre os protestos violentos e a sua causa não é avaliada. Morrer pelas ideias é um conceito que aflige. Matar por elas é inaceitável. Agora, matar e morrer por cartoons não é mais que ridículo? Por que carga de água temos de respeitar uma tão perigosa susceptibilidade? Conquistámos a democracia, a liberdade e o respeito, que defendemos e merecemos. Não tenhamos vergonha de nós.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 23-1-15

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publicado às 19:19

Defender a Bárbara

por Carla Hilário Quevedo, em 26.01.15

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Os primeiros textos que escrevi sobre aquele que é rotulado como “o caso Bárbara/Carrilho” datam de finais de Outubro de 2013. Estamos a 26 de Janeiro de 2015 e o assunto não parece ter fim, o que deve preocupar. Numa carta ao Público, um leitor classificou a situação dramática como “um folhetim”, relegando o assunto para a sua devida importância, que é no seu entender de leitor do Público, nenhuma. Acontece que o caso ser mediático não lhe retira gravidade. Não se trata de uma “novela”, nem há “roupa suja” a ser lavada em público. Ou a “roupa suja” que incomoda tanta gente ávida pelo “próximo episódio” da “novela” é um crime num contexto de intimidade conjugal.

 

O contexto não é irrelevante para a gravidade do crime, uma vez que o casamento é uma ligação de confiança. Um marido que maltrata a mulher não a ama nem a quer para nada. Tem, aliás, tanto desprezo e ódio por ela que o seu objectivo é acabar com a vida dela. É meu dever informar que ninguém mata por amor. A crença estúpida e falsa de que um homem maltrata uma mulher porque gosta tanto dela e não aguenta de ciúmes, etc. serve para perpetuar a esperança infundada na vítima, que se culpabiliza porque afinal é ela que não compreende esse “grande amor”. Não compreende porque não existe e esta é a verdade a saber sobre violência em contexto conjugal.

 

O ano ainda mal começou e as estatísticas já são aterradoras. Duas mulheres foram mortas por companheiros ou ex-maridos e estão a ser investigados mais dois casos de homicídio de mulheres que podem estar relacionados com violência doméstica. No caso recente da mulher assassinada pelo marido em Setúbal, a vítima tinha saído de casa para “denunciar o caso” à Polícia. O processo de divórcio estava a decorrer. As autoridades consideraram que a situação era de “baixo risco”. A mulher viria a ser morta a tiro horas depois.

 

Apesar de todas as semanas haver notícias sobre violência doméstica, com as vítimas a correr perigo de vida e de se saber as limitações graves das autoridades que lidam com estes casos, ainda há quem classifique o inferno de Bárbara Guimarães como uma “novela” que não tem lugar na imprensa séria.

 

No espaço de um ano e três meses, o ex-Ministro da Cultura e professor universitário, Manuel Maria Carrilho, insultou a ex-mulher e a sua família de tudo. Além dos insultos, fez acusações graves, pelas quais terá de responder em tribunal. Apesar do comportamento violento de Carrilho, a turba anónima e estúpida apontou o dedo à vítima. Perante a dedicação de Carrilho em destruir a ex-mulher nas páginas das revistas, a multidão deu ouvidos à única pessoa que falou e falou e falou neste processo. Lembro que as vítimas não falam.

 

Segundo o despacho do Ministério Público, revelado pelo i em primeira mão, Bárbara Guimarães mudou a fechadura de casa e contratou segurança privada por medo do que lhe pudesse acontecer. Teve a generosidade de enviar ao ex-marido os milhares de livros que leu e nunca percebeu. Parece uma piada de mau gosto, mas pode vir a ser julgada por violência doméstica. Ainda bem que não saiu de casa para “denunciar o caso” à Policia, como fez a vítima em Setúbal. Bárbara Guimarães sabia que estava numa situação de alto risco.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:17

Dietas loucas

por Carla Hilário Quevedo, em 25.01.15

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publicado às 19:17

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 25.01.15

Brigitte Bardot

 

... várias pessoas têm queixas sobre o excesso de inacção nas suas vidas. Há dias, li alguém a dizer que a vida não era só "pensar e escrever" e que era preciso "passar à acção". Pensar e escrever é agir, mas percebo a ideia. Penso que só quem não faz ideia do que é uma vida com uma superabundância de acções tem esta concepção romantizada e falsa sobre o que não conhece. Não há nada mais estúpido do que uma vida sem reflexão. 

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publicado às 10:03

Eu hoje acordei assim...

por Carla Hilário Quevedo, em 24.01.15

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Brigitte Bardot

 

... há dias percebi a minha função neste planeta: resolver problemas. Tornei-me competente em soluções. Assim mesmo, tão vago e incompreensível e maravilhoso quanto isto. É uma competência tão importante como saber falar chinês. Primeiro há que perceber se um problema é mesmo um problema, porque se é uma característica, então não se pode resolver. E se não se pode resolver, não é um problema. Ou nas palavras do sábio House, "se não é um sintoma, não é interessante". Só se pensa na cura quando há doença. Com a excepção inevitável de doenças incuráveis. Em suma, os meus dias são passados a agir. Sou uma intelectual esquisita, mas não estou sozinha. 

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publicado às 09:28

Cabide n.º 2

por Carla Hilário Quevedo, em 22.01.15

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Índice e horário 

Teatro da Trindade, 7 e 8 de Fevereiro

Sábado, 7 de Fevereiro

14h30
EDITORIAL
14h45 
O MEU CHARLIE É MAIOR DO QUE O TEU
Quem continuará a ser Charlie um mês após o ataque terrorista ao Charlie Hebdo?
Por João Miguel Tavares
15h45
E SE OS MUROS FALASSEM?
Entrevista de João Paulo Baltazar a Manuel Graça Dias. 
17h
PORTUGAL ENTRE QUATRO MUROS
Lei, ideologia, economia e ignorância.
Por António Macedo Vitorino
17h30
A CORTINA DE GORBACHEV
Três décadas depois de alcançar o poder (11 de Março de 1985), qual o papel que ainda reservamos ao histórico líder soviético? Debate entre Diogo Freitas do Amaral, autor do livro "Glória e Tragédia de Gorbachev", e Armando Marques Guedes. 
19h
A QUEDA DE UM MURO
Crónica sobre os limites da filosofia. Por Filipa Afonso
21h30
EXIBIÇÃO DO FILME "O VIGILANTE"
Vencedor da Palma de Ouro em 1974, "O Vigilante", de Francis Ford Coppola, é o filme escolhido por Pedro Mexia para responder à pergunta de capa da Cabide nº2. 

Domingo, 8 de Fevereiro

14h30 
CONFRONTO DE NOVOS MUROS 
Os recentes acontecimentos na Ucrânia como ponto de partida. Debate entre José Milhazes e Filipe Pathé Duarte.
15H15
PALAVRAS DE DIVISÃO
No mundo em que vivemos, o que significa muro? E muralha, cortina, fronteira, separação? Crónica de Carla Hilário Quevedo. 
15h45
CURIOSOS DA VIDA, ESPREITEMOS A TODOS OS MUROS
Há um pequeno poema de Bashô que diz: “Silêncio / uma rã mergulha / dentro de si”. E se cada um de nós se começasse seriamente a perguntar: “o que é a luz?”, “o que é a sombra?”, “o que está agora a iluminar-me ou a deixar-me?”, “que significado dou ao corte da penumbra?”.
Por José Tolentino Mendonça
17h00
A EUROPA CORTADA AO MEIO
Crónica de Rui Tavares.
17h45
MURO, FENDA, JANELA, PORTA, SIM, NÃO
Ensaio inédito de Gonçalo M. Tavares.

Preço da Cabide nº2: 5 euros (1 dia) e 8 euros (dois dias).

Locais de venda: Teatro da Trindade, Ticketline (www.ticketline.sapo.pt), Fnac, Worten, El Corte Inglés, C.C. Dolce Vita, Casino Lisboa, Galerias Campo Pequeno, Ag. Abreu, A.B.E.P., MMM Ticket e C.C. Mundicenter e U-Ticketline.

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publicado às 16:38

Voltaire faria o mesmo

por Carla Hilário Quevedo, em 20.01.15

Bernard Holtrop, conhecido por Willem, é um dos cartoonistas fundadores do Charlie Hebdo. Estava num comboio quando se deu o ataque que matou os seus colegas. Afirmou que nunca participou nas reuniões de redacção porque o aborreciam. Depois da manifestação de solidariedade, disse que os novos amigos de Charlie lhe "davam vómitos". Representantes de instituições, políticos e autoridades eclesiásticas eram os alvos habituais da revista. Não nos devemos alarmar com a expressão 'dar vómitos'. Na revista, as excrescências fisiológicas faziam parte do humor semanal. É, porém, compreensível que Willem a tenha usado para expressar a repugnância de ver pessoas que já tinham sido satirizadas nas primeiras filas da manifestação. As mensagens de simpatia da Rainha de Inglaterra, do Papa e de outros também não podem ser aceites. A sátira não é negociável, o humor é grande e a grosseria o seu profeta. É proibido aceitar a pena ou a piedade dos inimigos.

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 16-1-15

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publicado às 23:22

Ficção e realidade

por Carla Hilário Quevedo, em 19.01.15

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“George Clooney casou-se este ano com Amal Amaluddin. Amal é uma advogada dos direitos humanos que trabalhou no caso Enron, foi conselheira junto de Kofi Annan sobre o conflito na Síria e foi escolhida para um comité de três pessoas das Nações Unidas que investiga crimes de guerra na Faixa de Gaza, por isso esta noite o seu marido vai receber o Prémio de Carreira Cecil B. DeMille”. Tina Fey disse esta óptima piada na cerimónia de entrega dos Golden Globes. O marido é George Clooney, mas apesar de o saberem, os mortais podem namorar a ideia falsa de que a felicidade é sempre possível entre duas pessoas tão diferentes. O marido de Amal ser Clooney não é irrelevante.

 

A piada de Tina Fey indica o absurdo hollywoodesco de dar prémios de carreira a quem pouco fez para mudar o mundo – isto se compararmos com um trabalho desenvolvido numa área relevante. Ou seja, entre Amal e George, o frívolo é o marido. Parece que de repente senti o aroma da culpa dos ricos... Não é minha intenção estragar a piada de Tina Fey com análises, mas não posso deixar de referir o aspecto que salta mais à vista: Amal tem todas as qualificações e não recebe nenhum prémio. Não tinha de o receber naquele contexto e a graça também está aí, mas foi por este aspecto que críticos da sua apresentação com Amy Poehler acusaram-na de ser feminista.

 

Imaginemos que Amal daqui a uns tempos tem dois filhos com Clooney, gémeos, claro, e quer perseguir uma carreira política. Talvez tenha mais sorte do que a primeira-ministra da Dinamarca, Birgitte Nyborg, da série televisiva Borgen, que está a ser exibida diariamente na RTP 2. Borgen, dos mesmo produtores de The Killing, é anterior à eleição de Helle Thorning-Schmidt, que conhecemos por uma selfie com Obama. A série foi quase premonitória da eleição. Mas espero que a relação com o marido não seja tão conturbada.

 

Birgitte Nyborg é uma primeira-ministra firme, justa e inteligente no exercício do poder. Acontece que o cargo é exigente e Birgitte nem sempre consegue chegar a casa a horas para jantar com a família. O poder também altera o seu comportamento – como acontece a qualquer primeiro-ministro, porque o poder consiste na gestão difícil entre forças opostas – e a relação conjugal vai ficando cada vez mais distanciada. Philip, o marido, não pode trabalhar por causa de conflitos de interesses se fosse director de uma empresa, por exemplo. Philip cansa-se, o que se percebe. Mas se fosse ao contrário, não haveria série, porque não há conflito numa história sobre uma mulher que abdica da carreira por causa do marido. No dia em que esta história for contada nos mesmos termos de Borgen, saberemos que chegámos à igualdade. Só me surpreende que Birgitte e Philip não tenham resolvido parte dos seus problemas com a contratação de uma baby sitter. Deve ser uma “questão cultural”.

 

Quanto a Amal, como disse, talvez tenha mais sorte. Que conflitos de interesses haverá no caso de Clooney? Se não pudesse aceitar o papel de terrorista nalgum filme, não duvidariam na hora de contratar um séquito para apoiar a vida que escolheram. Não são tema de série. Mais uma vitória para a América.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:23

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