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Depois do céu

por Carla Hilário Quevedo, em 05.01.15

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App Hipstamatic com lente Jimmy e rolo Blanko

 

Into the Woods, traduzido por Caminhos da Floresta, realizado por Rob Marshall, é a adaptação para cinema há muito desejada por Stephen Sondheim, autor da música e das letras. James Lapine fez o libreto do musical estreado no Martin Beck Theatre em Nova Iorque, a 5 de Novembro de 1987. O filme é uma tentativa comercial e muito bem feita de fazer chegar uma obra complexa ao público em geral. É uma obra-prima vendida como comédia para crianças.

 

Into the Woods começa bem. Uma série de personagens nossas conhecidas de contos infantis tradicionais, como a Cinderela (Anna Kendrick), o João do Pé de Feijão (Daniel Huttlestone) ou o Capuchinho Vermelho (Lilla Crawford), vivem numa aldeia perto de uma floresta. Como não podia deixar de acontecer em qualquer conto de fadas, há uma Bruxa (Meryl Streep) e dois príncipes, um para Cinderela (Chris Pine) e outro para Rapunzel (Billy Magnussen). Rapunzel (Mackenzie Mauzy) e a Avozinha (Annette Crosbie) vivem na floresta, como o Lobo (Johnny Depp). Temos ainda o Padeiro (James Corden) e a Mulher (Emily Blunt), inventados por James Lapine, que unem as personagens da aldeia.

 

Tudo começa com o optimismo expresso numa série de desejos. O Capuchinho deseja ter comida para levar à avozinha, a mãe do João (Tracey Ullman) quer ter dinheiro, a Cinderela quer ir ao baile, o casal deseja um filho que não consegue ter por causa de uma maldição lançada pela bruxa. Mas o feitiço pode ser revertido e o casal tem por missão recolher uma vaca branca (do João), uma capa vermelha (do Capuchinho), uma madeixa de cabelo louro (talvez da Rapunzel) e um sapato dourado (da Cinderela), para quebrar o feitiço à terceira meia-noite. Mas a motivação da bruxa não é ajudar o casal, mas ajudar-se a si mesma, quebrando o feitiço que mãe lançou sobre ela, tornando-a velha e feia.

 

Assim como a Bruxa é frívola, a Cinderela é inconstante, o Príncipe é um tonto, o João é um ladrão, a Capuchinho Vermelho uma oportunista desconfiada depois de ser salva pelo Padeiro. As personagens são afinal “nice, but not good”, uma distinção importante feita pela Bruxa no grande tema que é Last Midnight. Todas estiveram dispostas, por necessidade, vaidade ou ambição a fazer o que era preciso para fazer cumprir os seus desejos.

 

Mas a vida não acaba depois de os desejos serem cumpridos. Depois da floresta e “depois do céu”, verso belíssimo em Giants in the Sky, tudo muda e não para melhor. Mães podem morrer depois de enriquecer, mulheres podem ser infiéis depois de verem satisfeito o seu maior desejo, princesas podem ser chamadas a serem mães dos filhos dos outros, príncipes podem fugir. Já para não falar da família abastada de gigantes no céu, que reage quando é roubada, descendo à floresta e deixando um rasto de destruição que torna o sítio irreconhecível. As culpas de nada ser como dantes, apesar de haver uma ânsia pela mudança de início, são exploradas no tema extraordinário Your Fault.

 

Into the Woods não foi um sucesso quando estreou. Não o será agora também, apesar da Disney ou de Meryl Streep. Não deixa por isso de ser uma obra-prima de Sondheim e Lapine, adaptada com respeito por Rob Marshall. Recomendo com entusiasmo, embora não a toda a gente.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 18:55