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#JeSuisCharlie

por Carla Hilário Quevedo, em 12.01.15

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App PictureShow com filtro Instant sobre cartoon de Cyril Delavalle

 

O atentado terrorista em Paris na redacção do jornal satírico, libertário e anticlerical Charlie Hebdo originou as discussões previsíveis e imorais sobre os limites do humor. Para quem não está familiarizado com as actividades do jornal que em 2011 tinha sido alvo de atentado à bomba, sem vítimas na altura, o Charlie Hebdo satiriza desde 1970 os poderes político e religioso, sem caridade.

 

A origem do Charlie Hebdo é no entanto anterior. Tudo começou com a revista satírica mensal Hara-Kiri, fundada por Georges Bernier, François Cavanna e Fred Aristidès, em 1960. Nela participavam cartoonistas como Cabu e Wolinski, duas das vítimas de dia 7. Em 1970, data que surge o Charlie Hebdo, o Hara-Kiri Hebdo (no ano anterior passara a haver uma edição semanal do jornal) publica na capa a seguinte frase alusiva à morte de Charles de Gaulle: “Baile trágico em Colombey: 1 morto”. A referência era a recente tragédia da morte de 146 pessoas numa discoteca em França. Charles de Gaulle residia Colombey-les-Deux-Églises. O Hara-Kiri Hebdo foi suspenso, como fora em vários momentos da sua existência nada pacífica, mas percebi por estes dias que está activo no Facebook*, numa página onde publicou o cartoon que aqui reproduzo. Em Novembro do mesmo ano, Georges Bernier e François Cavanna criaram o Charlie Hebdo. Charlie por causa de Charles de Gaulle.

 

Não é verdade, portanto, que este grupo de selvagens talentosos tenha tido uma vida pacífica. Nada comparado no entanto com o que viriam a sofrer, e que pagariam com a vida, desde que Maomé entrou em cena. Dir-se-ia que os brilhantes cartoons sobre Maomé provocaram uma reacção de profundo desagrado nos terroristas da al-Qaeda, etc. Mas a explicação é esquisita. Como é que um cartoon, por mais ofensivo que seja pode causar um assassínio? A deputada Ana Gomes twittou que a culpa era da austeridade, oferecendo uma explicação mais exótica, mas a verdade é que muita gente concorda com uma explicação sociológica para os atentados. A causa está, no meu entender, no próprio acto de querer aniquilar pessoas que vivem de uma certa forma, mas não por viverem dessa forma. Os cartoons, a religião, a liberdade no Ocidente, são desculpas que os ocidentais com complexos de culpa sobre o seu modo de vida têm discutido como causas para actos em si inaceitáveis. Esta é uma razão por que falar de limites do humor é inútil.

 

Outra questão discutida nos últimos dias tem sido a utilização da frase “Je Suis Charlie”. Pessoas que pareciam tão diferentes como Jean-Marie Le Pen e David Brooks vieram dizer que “não são Charlie”. O primeiro foi líder do partido de extrema-direita Front National e o segundo é colunista do The New York Times. Têm em comum a ideia de que a sátira é perigosa, o que me faz desconfiar e ter medo de ambos. Em Portugal, pessoas também tão diferentes como Pacheco Pereira e Bruno Nogueira vieram dizer que nem toda a gente que se diz Charlie é mesmo Charlie. Pacheco Pereira não gostou da expressão, que lhe pareceu “açucarada”**, e Bruno Nogueira denunciou o horror da hipocrisia de se afirmar Charlie quando nem um programa de humor existe em Portugal.

 

Je Suis Charlie significa apenas que se está do lado certo, mais nada. Não significa que somos cartoonistas (desenho mal) nem que somos selvagens na crítica (“she never bothers with people she hates”). Como gosto de açúcar e vejo na hipocrisia a manifestação do desejo de ser melhor, Je Suis Charlie.

 

Publicado na edição de hoje do i

 

* Só tarde percebi que a página de que falo é actualizada pelos fãs. As minhas desculpas pelo erro. 

** JPP usou a expressão na Quadratura do Círculo de 8.1.15.

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publicado às 19:39