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Ficção e realidade

por Carla Hilário Quevedo, em 19.01.15

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“George Clooney casou-se este ano com Amal Amaluddin. Amal é uma advogada dos direitos humanos que trabalhou no caso Enron, foi conselheira junto de Kofi Annan sobre o conflito na Síria e foi escolhida para um comité de três pessoas das Nações Unidas que investiga crimes de guerra na Faixa de Gaza, por isso esta noite o seu marido vai receber o Prémio de Carreira Cecil B. DeMille”. Tina Fey disse esta óptima piada na cerimónia de entrega dos Golden Globes. O marido é George Clooney, mas apesar de o saberem, os mortais podem namorar a ideia falsa de que a felicidade é sempre possível entre duas pessoas tão diferentes. O marido de Amal ser Clooney não é irrelevante.

 

A piada de Tina Fey indica o absurdo hollywoodesco de dar prémios de carreira a quem pouco fez para mudar o mundo – isto se compararmos com um trabalho desenvolvido numa área relevante. Ou seja, entre Amal e George, o frívolo é o marido. Parece que de repente senti o aroma da culpa dos ricos... Não é minha intenção estragar a piada de Tina Fey com análises, mas não posso deixar de referir o aspecto que salta mais à vista: Amal tem todas as qualificações e não recebe nenhum prémio. Não tinha de o receber naquele contexto e a graça também está aí, mas foi por este aspecto que críticos da sua apresentação com Amy Poehler acusaram-na de ser feminista.

 

Imaginemos que Amal daqui a uns tempos tem dois filhos com Clooney, gémeos, claro, e quer perseguir uma carreira política. Talvez tenha mais sorte do que a primeira-ministra da Dinamarca, Birgitte Nyborg, da série televisiva Borgen, que está a ser exibida diariamente na RTP 2. Borgen, dos mesmo produtores de The Killing, é anterior à eleição de Helle Thorning-Schmidt, que conhecemos por uma selfie com Obama. A série foi quase premonitória da eleição. Mas espero que a relação com o marido não seja tão conturbada.

 

Birgitte Nyborg é uma primeira-ministra firme, justa e inteligente no exercício do poder. Acontece que o cargo é exigente e Birgitte nem sempre consegue chegar a casa a horas para jantar com a família. O poder também altera o seu comportamento – como acontece a qualquer primeiro-ministro, porque o poder consiste na gestão difícil entre forças opostas – e a relação conjugal vai ficando cada vez mais distanciada. Philip, o marido, não pode trabalhar por causa de conflitos de interesses se fosse director de uma empresa, por exemplo. Philip cansa-se, o que se percebe. Mas se fosse ao contrário, não haveria série, porque não há conflito numa história sobre uma mulher que abdica da carreira por causa do marido. No dia em que esta história for contada nos mesmos termos de Borgen, saberemos que chegámos à igualdade. Só me surpreende que Birgitte e Philip não tenham resolvido parte dos seus problemas com a contratação de uma baby sitter. Deve ser uma “questão cultural”.

 

Quanto a Amal, como disse, talvez tenha mais sorte. Que conflitos de interesses haverá no caso de Clooney? Se não pudesse aceitar o papel de terrorista nalgum filme, não duvidariam na hora de contratar um séquito para apoiar a vida que escolheram. Não são tema de série. Mais uma vitória para a América.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:23