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Defender a Bárbara

por Carla Hilário Quevedo, em 26.01.15

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Os primeiros textos que escrevi sobre aquele que é rotulado como “o caso Bárbara/Carrilho” datam de finais de Outubro de 2013. Estamos a 26 de Janeiro de 2015 e o assunto não parece ter fim, o que deve preocupar. Numa carta ao Público, um leitor classificou a situação dramática como “um folhetim”, relegando o assunto para a sua devida importância, que é no seu entender de leitor do Público, nenhuma. Acontece que o caso ser mediático não lhe retira gravidade. Não se trata de uma “novela”, nem há “roupa suja” a ser lavada em público. Ou a “roupa suja” que incomoda tanta gente ávida pelo “próximo episódio” da “novela” é um crime num contexto de intimidade conjugal.

 

O contexto não é irrelevante para a gravidade do crime, uma vez que o casamento é uma ligação de confiança. Um marido que maltrata a mulher não a ama nem a quer para nada. Tem, aliás, tanto desprezo e ódio por ela que o seu objectivo é acabar com a vida dela. É meu dever informar que ninguém mata por amor. A crença estúpida e falsa de que um homem maltrata uma mulher porque gosta tanto dela e não aguenta de ciúmes, etc. serve para perpetuar a esperança infundada na vítima, que se culpabiliza porque afinal é ela que não compreende esse “grande amor”. Não compreende porque não existe e esta é a verdade a saber sobre violência em contexto conjugal.

 

O ano ainda mal começou e as estatísticas já são aterradoras. Duas mulheres foram mortas por companheiros ou ex-maridos e estão a ser investigados mais dois casos de homicídio de mulheres que podem estar relacionados com violência doméstica. No caso recente da mulher assassinada pelo marido em Setúbal, a vítima tinha saído de casa para “denunciar o caso” à Polícia. O processo de divórcio estava a decorrer. As autoridades consideraram que a situação era de “baixo risco”. A mulher viria a ser morta a tiro horas depois.

 

Apesar de todas as semanas haver notícias sobre violência doméstica, com as vítimas a correr perigo de vida e de se saber as limitações graves das autoridades que lidam com estes casos, ainda há quem classifique o inferno de Bárbara Guimarães como uma “novela” que não tem lugar na imprensa séria.

 

No espaço de um ano e três meses, o ex-Ministro da Cultura e professor universitário, Manuel Maria Carrilho, insultou a ex-mulher e a sua família de tudo. Além dos insultos, fez acusações graves, pelas quais terá de responder em tribunal. Apesar do comportamento violento de Carrilho, a turba anónima e estúpida apontou o dedo à vítima. Perante a dedicação de Carrilho em destruir a ex-mulher nas páginas das revistas, a multidão deu ouvidos à única pessoa que falou e falou e falou neste processo. Lembro que as vítimas não falam.

 

Segundo o despacho do Ministério Público, revelado pelo i em primeira mão, Bárbara Guimarães mudou a fechadura de casa e contratou segurança privada por medo do que lhe pudesse acontecer. Teve a generosidade de enviar ao ex-marido os milhares de livros que leu e nunca percebeu. Parece uma piada de mau gosto, mas pode vir a ser julgada por violência doméstica. Ainda bem que não saiu de casa para “denunciar o caso” à Policia, como fez a vítima em Setúbal. Bárbara Guimarães sabia que estava numa situação de alto risco.

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:17