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Necrologia

por Carla Hilário Quevedo, em 03.02.15

Na semana passada morreu o rei da Arábia Saudita. Abdullah bin Abdulaziz Al Saud tinha 90 anos. Dizem que deixa trinta viúvas, quinze órfãos e vinte órfãs. Alguma imprensa internacional deslumbrada noticiou que Abdullah era reformista. É tão despropositado como dizer que Marcelo Caetano era um revolucionário trotskista. Dizer que não a duas ou três coisas ao clero mais conservador não me parece uma proeza do outro mundo. Abdullah foi notícia há uns meses por ter sido acusado de restringir a liberdade de uma das suas filhas, uma história que não chegou a ser esclarecida. Talvez tenha sido esperto ao recusar descer a produção de petróleo quando começou a baixar de preço. Mas se pensarmos que a Arábia Saudita detém 16% do mercado e a maior reserva petrolífera do mundo não é uma medida assim tão audaciosa. Mesmo que venda o barril de petróleo a vinte dólares, o reino de Abdullah bin Abdulaziz Al Saud continuaria a ter lucro. Assim também eu. 

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 30-1-15

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publicado às 19:14

Nacionalizar a maternidade

por Carla Hilário Quevedo, em 03.02.15

Dizem que o Papa Francisco anda a falar demais. Como é sabido, gosto do Papa e tenho respeito por ele. Por isso lembro que qualquer pessoa que fale publicamente a um ritmo diário arrisca a ser mal entendido. Foi o que aconteceu quando disse que «alguns pensam, e desculpem o termo, que para serem bons católicos devem ser como coelhos». Pais de famílias numerosas ficaram indignados com as declarações do Papa, que entretanto foram bem explicadas por Ulrich L. Lehner na revista First Things. O autor atribui ao Iluminismo a ideia das mulheres 'reproduzirem como coelhos'. Durante o reinado de Luís XIV, o declínio de natalidade foi resolvido pelo Governo francês com incentivos que se traduziam em pagamentos de subsídios às famílias com mais descendentes. A novidade gaulesa foi, na verdade, inventada pelo imperador Augusto. O objectivo era o de gerar mais contribuintes para alimentar as nações. Só o Estado usa as pessoas. Deixem a religião em paz. 

 

Publicado na Tabu, Cinco Sentidos, 30-1-15

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publicado às 19:11