Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Nada parva

por Carla Hilário Quevedo, em 09.02.15

CHQ140.JPG

App InstaEffects com filtro Sage

 

Há tempos, uma amiga disse-me que o melhor elogio que lhe podiam fazer era dizerem dela que “não é nada parva”. O melhor elogio não é aquele que nos fazem a nós mas o que nos vêm contar terem feito sobre nós. É raro e por isso precioso. “Sabes que me vieram dizer muito bem de ti?” é mais uma dessas formas retorcidas de elogio, como se fosse impensável “irem falar de mim” e logo, imagine-se, “muito bem”. A reacção adequada a esta formulação é capaz de ser um simples “obrigada”: por terem ido falar, por terem dito muito bem e, acima de tudo, por a pessoa a quem contaram ainda se ter dado ao trabalho de o comunicar. Nada disto é pouco, que é como quem diz “é tudo muito bom”.

 

Fiquei a pensar na maneira tão tipicamente portuguesa de elogiar, usando negativas, “não é feia”, “não é tonta” e, claro, “não é parva”, mas que depressa se mistura com a verdade cruel do “não é magra” ou mesmo de um falso caridoso “não é nada bonita”. O truque para dizer bem consiste em associar a negativa a um adjectivo desagradável. O resultado da soma é positivo. “Não é nada caro”, dizemos de coisas boas e bonitas, como se precisássemos de uma justificação para as comprar, ignorando o preço objectivamente exorbitante. “Mas para o que é...”, respondem logo os nossos cúmplices na compra. “Para o que é, é dado!” asseguramos nós, de cartão de crédito na mão.

 

Compreendi o prazer que a minha amiga teria em saber que havia quem não a achasse “nada parva”. Não ser “nada parva” implica que não se cai no conto do vigário. Significa que reconhecemos estarmos perante uma pessoa atenta e difícil de enganar. Mas imaginemos que a rapariga “nada parva”, por exemplo, se apaixona e fica um bocado parva como é próprio da paixão: “Lembras-te da Maria da Encarnação? Nada parva... Mas agora vê tu que se apaixonou e anda de cabeça perdida. Até parece parva!”. A Maria da Encarnação passa numa frase de bestial a besta como acontece tantas vezes. Nem a mais anónima das criaturas está livre disto. Além de que em Portugal uma pessoa alegre pode facilmente ser confundida com alguém que “parece parva”.

 

Não é habitual um homem dizer de uma mulher que ela não é “nada parva”, mas pode acontecer. Neste dias dominados pelo caos tudo é possível. Diria, no entanto, que o estratagema da dupla negativa elogiosa é mais feminino. Apesar da longa tradição de generosidade com os homens, as mulheres são poupadas quando elogiam outras mulheres. Mas talvez esta seja uma ideia menos verdadeira (reparem como não me comprometo) relativamente ao sexo feminino e que não me dá jeito agora esclarecer (pronto, já estraguei tudo).

 

Há dias vi um sketch humorístico da Porta dos Fundos, Dietas, em que três raparigas falavam sobre esta actividade praticada por muitas mulheres. Cada uma descrevia a dieta radical que estava a fazer e uma explicou que tinha conseguido fazer com que o marido se envolvesse com a secretária. Agora só chorava e não comia, mas tinha de ter cuidado com as amigas que a queriam ver feliz. Na verdade, só queriam que se sentisse bem para engordar outra vez.

 

Por isso, já sabe: se o elogio for directo, desconfie. Mas se lhe disserem desajeitadamente que “o tempo quase não passa por si”, sorria e agradeça.   

 

Publicado na edição de hoje do i.  

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:21