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Vida sexual

por Carla Hilário Quevedo, em 16.02.15

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Não li o “romance erótico” da britânica E. L. James, As Cinquenta Sombras de Grey, e não vi a adaptação da obra para o cinema, da realizadora Sam Taylor-Johnson. Não tenciono ler o livro e não verei o filme quando estiver disponível no videoclube. Não o farei porque não tenho curiosidade por este digest de sadomasoquismo, um pouco como o génio Peter Cook, que dizia: “Quando vou ao teatro, não quero ver sexo e violência: tenho disso que baste em casa”.

 

Se for este o seu caso, mas se ainda assim tiver interesse em ver um filme que conte a história de uma relação amorosa entre um sádico e uma masoquista – e a primeira e talvez única coisa a saber é que não há sádicos sem masoquistas –, veja A Secretária, com James Spader, cuja personagem se chama curiosamente Mr. Grey, e Maggie Gyllenhaal, que é Lee Holloway, uma rapariga mentalmente frágil, que arranja um emprego como secretária. O filme tem mais de dez anos, mas tem muita graça e é bem interpretado.

 

A estreia do filme provocou um frenesi nos órgãos de comunicação social, que parecem agora ter descoberto que a espécie humana tem interesse por sexo. A SIC e o Expresso entrevistaram 33 portugueses que quiseram partilhar pormenores da sua actividade sexual com o mundo. A série de reportagens intitulada “Vamos falar de sexo?” ameaça prolongar-se por várias semanas e consiste em “perceber” os comportamentos sexuais dos portugueses, sugerindo deste modo que os espanhóis, os chineses ou os habitantes da Mauritânia têm hábitos sexuais diferentes. Como espectadora, não me deu gozo nenhum ver pessoas comuns a falarem da sua vida íntima. Não por nenhum moralismo, mas porque não estou interessada em saber o que gostam mais ou menos de fazer na cama. Assistir à exposição sincera de partes do todo pode ser um grande turn-off. Mudei de canal um bocado envergonhada, confesso, logo para ser confrontada com o igualmente embaraçoso Carnaval de Torres Vedras.

 

No meio desta chachada, apareceu uma entrevista no Observador à sueca Erika Lust, autora de um projecto de pornografia feminista, que difere segundo as suas palavras da “pornografia mainstream, cujas histórias se baseiam em situações em que a mulher está em apuros, o homem salva-a e ela lhe agradece com sexo”. O projecto, que se encontra no site xconfessions.com, pretende incluir pessoas reais (muito ao estilo de campanhas de beleza que usam “modelos reais”) e não actrizes pornográficas que apelam ao imaginário machista e que pouco dizem às mulheres em geral. São em geral filmes feitos por homens numa indústria em que as mulheres ganham mais. Ao menos isso!

 

Fiquei a pensar no que seria um filme pornográfico feminista e concluí que pode ser um filme em que as mulheres serão gordas, baixas e feias à vontade, de todas as idades e feitios, sem nenhuma exigência, mas em que os homens deverão ser sempre altos, louros, fortes e competentes – palavra não por acaso escolhida por Christine Lagarde para descrever Yiánnis Varoufákis, ministro das Finanças grego. Ou estarei a pensar como um homem? Seja como for, notemos que existem diferenças entre uma chachada e uma proposta.    

 

Publicado na edição de hoje do i

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publicado às 19:44