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Dos Modernos

por Carla Hilário Quevedo, em 16.03.15

Degas, 1882

Edgar Degas, Danseuse s'etirant, 1882-85

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publicado às 19:11

Sinto-me magra

por Carla Hilário Quevedo, em 16.03.15

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O assunto do dia não é António Costa, Pedro Passos Coelho, as legislativas ensombradas por presidenciais longínquas, a Grexit, o casal Varoufákis ou o perfil de Cavaco Silva para o seu “sucessor”. O assunto do dia é qualquer tema que tenha que ver com mulheres. Acontece que nem todos os temas que dizem respeito às mulheres, tantos e tão variados explorados à exaustão nos media, na sua maioria deprimentes, são respeitáveis. Um deles é aquilo a que chamam “a relação da mulher com o corpo” e a necessidade de haver “modelos reais” ou de “beleza real” para que a maioria feminina não se sinta feia e gorda quando se confronta com imagens de modelos magricelas de biquíni.

 

A ideia está baseada no preconceito de as mulheres poderem desenvolver problemas alimentares por olharem para as modelos e quererem ser como elas. Porém, a causa para os distúrbios alimentares não está numa indústria que é avessa à ideia de a gordura ser formosura. A causa está na maneira distorcida e gravemente doente que as raparigas têm de si próprias. A anorexia ou a bulimia são distúrbios graves que exigem intervenção psiquiátrica. Não são, portanto, questões superficiais que se resolvam a ver gorduchas em vez de magricelas nos anúncios a sabonetes ou nos desfiles de moda.

 

A ideia da “beleza real” é só um negócio como qualquer outro, sustentado no mito formulado por Juvenal em finais do século I de que as mulheres são fundamentalmente estúpidas. Ou seja, há quem acredite que as mulheres realmente se sentem mal quando olham para a Cindy Crawford por não serem como ela. É uma fantasia ofensiva que ajuda a perpetuar falsidades sobre doenças. A “beleza real” é uma moda como foram os calções até ao joelho, as camisas de folhos ou as calças à boca de sino. O que são hoje considerados “quilos a mais” foram ideal de beleza há 50 anos. Ninguém garante que não voltem a estar na berra. Mas na verdade é indiferente se voltam ou não.

 

Ganhar dinheiro à custa do que é uma opinião acerca do que se pensa que os outros pensam não é exclusivo das marcas de cosmética. O Facebook quis incluir na sua rubrica “Estou a sentir-me...” logo seguida de vários estados, como “feliz”, “triste” ou “com sede”, uma nova possibilidade: “Estou a sentir-me... gorda”. Até esta altura pensava que isto era uma brincadeira, própria aliás de uma rede social. Mas percebi que era tudo muito sério quando li que houve protestos e que um grupo de activistas, “Endangered Bodies” (Corpos em Perigo), lançou uma petição para que a actualização do estado fosse retirada. Segundo o grupo, “sentir-se gordo não é um sentimento” e podia agravar a vergonha com o corpo. Como exactamente, não sabemos.

 

Outras possibilidades como “Estou a sentir-me... com sede” ou “com frio” não foram objecto da mesma crítica. E o que dizer de “Estou a sentir-me... insignificante”? Não será esta possibilidade de estado demasiado séria para o recreio que deveria ser o Facebook? Tenho pena de não ter a possibilidade de me “estar a sentir gorda” de manhã e “magricela” à noite. Talvez um dia.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 19:06