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Gatinhos, sempre

por Carla Hilário Quevedo, em 23.03.15

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Daqui a uns séculos, os historiadores referir-se-ão aos tempos que vivemos como a época em que a humanidade oscilava neuroticamente entre assistir a vídeos de execuções perpetradas pelo autoproclamado Estado Islâmico e vídeos queridos de gatinhos. Não sei o que move alguém a clicar num vídeo em que se anuncia uma degolação ou um linchamento de uma mulher que queimou um exemplar do Alcorão. Não vi nem quero ver. Que curiosidade é esta que leva pessoas aparentemente normais a querer assistir a uma decapitação online?

 

Do lado oposto à violência na Síria e no Iraque, autênticos infernos na terra, temos uma profusão de vídeos de gatinhos e cãezinhos e gatinhos e bebés. Embora não pareça, penso que um extremo não vive sem o outro e que a overdose de fofura terá sido criada para combater a violência absurda que nos entra todos os dias pelos ecrãs de computadores, tablets, smartphones. Não se pode sossegar porque há sempre algum site a impingir notícias de terror. Não conheço os números, mas tenho curiosidade em comparar a quantidade de visualizações do linchamento com o de um vídeo que vi há tempos de um cão a lamber as costas de um bebé, num movimento que o massaja. A criança, sentada no chão, não está minimamente incomodada com o que se está a passar, pelo contrário. O vídeo mostra como crescer é abdicar de várias formas inesperadas de prazer. Ou então é de mim.

 

Há dias, em conversa com a minha amiga Robin sobre a maravilha que é o Bored Panda fiquei a saber que o BuzzFeed tem uma pessoa a tempo inteiro a escolher os melhores vídeos de gatinhos. Um trabalho de sonho! O site tem uma secção sobre notícias de animais, onde se incluem as indispensáveis Cat News, e aí temos acesso a uma vasta quantidade de vídeos sobre os nossos amigos mais fofos. Há imagens de gatos a bocejar, uma selecção criteriosa de gatos a espreguiçar-se e até uma reportagem sobre o reencontro emocionante de um homem que vivia em Kobani, na fronteira entre a Síria e a Turquia, e a sua gata, que tinha deixado para trás por causa da tomada da cidade pelo Estado Islâmico. A primeira vez que voltou a casa para levar o bicho com ele para a Turquia, a gata tinha dado à luz. Os ataques continuaram, o homem teve de fugir e decidiu deixar gata e gatinhos para trás porque assim teriam mais hipóteses de sobreviver. Três meses depois, Kobani foi libertada. Quando o homem voltou à cidade, tinha a gata sentada nos escombros à espera dele. É uma história de amor, que une o mais tenebroso ao mais absolutamente fofo. Se isto não tem interesse jornalístico, não sei o que poderá ter!  

 

Sou fã de vídeos de gatinhos e digo-o sem vergonha nem pudor. Prefiro assistir a quatro minutos de cenas de cães brincalhões a tentarem ser amigos de gatos do que a ver a maior parte dos telejornais, isto para não falar de qualquer programa da tarde na televisão portuguesa. Não é por apatia. É mesmo porque já vi demais, já percebi o que não queria, já me entraram pelo ecrã dentro com a realidade violenta que não tem solução. E também porque não tenho um aquário e olhar para o tecto é um bocado monótono. Gatinhos, sempre.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 17:32