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Razões não faltam

por Carla Hilário Quevedo, em 30.03.15

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O desafio do artigo de hoje consiste em esclarecer até que ponto o que se comenta sobre certos eventos é inútil, estranho e ofensivo. É um desafio porque há coisas que só merecem o nosso mais respeitoso silêncio. E merecem silêncio porque não há explicações para esses acontecimentos terríveis. O estudo e a reflexão existem precisamente para chegarmos a esta conclusão e não, como tantos pensam, para arranjar explicações para tudo o que acontece. O estudo tranquiliza as almas quanto à necessidade do que não existe. Neste caso, falo das explicações para o caso horrível da Germanwings. O que estes dias provam é que a angústia de preencher o espaço não ajuda à verdade.

 

Os crentes têm palavras para descrever acontecimentos inesperados excelentes, mas também se deparam com os seus limites quando acontece qualquer coisa horrível. Nada disso, no entanto, impediu o padre Gonçalo Portocarrero de Almada de invocar Hannah Arendt em vão a propósito do co-piloto que despenhou um avião nos Alpes franceses com mais 149 pessoas a bordo. Num artigo no Observador, a tentação de explicar falou mais alto, e a banalidade do mal, uma nota marginal de Hannah Arendt sobre o Holocausto, foi transformada em ‘normalidade do mal’, o que sugere que qualquer pessoa pode ter um co-piloto maléfico e chanfrado dentro dela. A equiparação entre o Holocausto e o avião despenhado é tão falhada como a tentativa de meter o Rossio na Betesga. Fiquei a pensar, no entanto, que é na diferença que se torna claro que, ao contrário de Göring e Himmler, o co-piloto percebeu que tinha uma oportunidade. E como se diz hoje em dia, agarrou-a. Atenção que esta não se trata de uma causa: apenas da descrição de uma possibilidade.

 

Na televisão, sobretudo nos momentos logo a seguir à notícia, houve um autêntico desfile de explicações sobre o caso. Como era cedo, e parece que há um dever de não compromisso com uma história antes se conhecerem “os factos” – e vimos isto em Portugal, quando falaram de “tiroteios” e “atiradores” quando se passou o ataque terrorista ao Charlie Hebdo, como se tudo não passasse de uma troca de tiros –, alguém responsável pela companhia veio falar de o co-piloto ter querido “destruir o avião”. Era uma explicação vaga e eufemística. Depois veio a tese do suicídio, que deu azo a que se falasse da depressão como um barril de pólvora à espera da oportunidade certa. Acontece que a maioria dos deprimidos não mata uma mosca e até faz a sua vida. Um piloto desesperado por preencher 20 minutos de comentário na televisão falava das “lutas internas que todos temos”. Agradeço que não me envolvam nisso!

 

Problemas de visão e baixas médicas ocultadas da companhia são mais ingredientes para apresentar uma explicação que sossegue o público. Um desgosto amoroso foi também apontado como uma razão para o sucedido. A culpa, como sabemos, é feminina. Coitadinho... Uma Mary W. apareceu a dizer que o ex-namorado “queria mudar o sistema para o seu nome ser lembrado para sempre”, uma conversa que ouvimos em novos desesperados e velhos tontos. Por mim, espero que o co-piloto homicida arda no inferno.

 

Publicado na edição de hoje do i.

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publicado às 19:10